Terça, 19 de Maio de 2026
13°C 17°C
Campo Grande, MS
Publicidade

O Legado do CDC: Entre a Conquista e o Desafio da Nova Era.

As conquistas de ontem e os desafios de hoje: por que o Código de Defesa do Consumidor continua mais relevante do que nunca.

12/09/2025 às 17h06 Atualizada em 12/09/2025 às 17h37
Por: Nayara Queiroz
Compartilhe:
O Legado do CDC: Entre a Conquista e o Desafio da Nova Era.

Nesta semana, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) completou 35 anos, consolidando-se como um dos pilares da ordem jurídica brasileira. Longe de ser apenas uma lei, o CDC representa uma mudança de paradigma. Sua promulgação marcou o fim de uma era de unilateralidade, estabelecendo princípios fundamentais como a transparência, a equidade e a proteção contra práticas abusivas. Contudo, em uma sociedade que já está imersa no digital, é imperativo analisar o legado do CDC sob a ótica dos desafios atuais.


O CDC, com seu caráter protetivo, instituiu mecanismos que se tornaram essenciais. O direito à informação, por exemplo, que antes combatia as "letras miúdas" em contratos de papel ou a falta de dados sobre a origem de um produto, agora se depara com os intermináveis e complexos "termos e condições" de plataformas online que ninguém lê. Da mesma forma, a inversão do ônus da prova, uma conquista histórica que reconheceu a desigualdade técnica e econômica, hoje se aplica em situações como a de um cliente que precisa provar que sua conta bancária foi invadida por um golpe digital, quando o banco é quem detém todos os registros da transação.


A ascensão da era digital e a chegada da Inteligência Artificial trouxeram, no entanto, novos e complexos desafios. A relação de consumo, antes face a face, é agora intermediada por algoritmos. A IA, que tanto promete otimizar a experiência, também pode ser uma nova forma de prática abusiva. Pense na frustração de um consumidor que, ao tentar resolver um problema com sua internet, é direcionado a um chatbot que repete frases prontas e não oferece uma solução real, ou pior, que o impede de falar com um ser humano. Esse é um exemplo claro de como o direito a um serviço eficaz é corroído pela tecnologia.


Além disso, temos os chamados "dark patterns" (padrões obscuros), que são técnicas de design de interfaces digitais para manipular o comportamento do usuário. Por exemplo, quando uma loja online esconde o botão de cancelamento de uma assinatura em um labirinto de páginas, ou quando usa a falsa sensação de escassez ("apenas mais um produto em estoque!") para forçar a compra. Essas práticas, que violam o princípio da boa-fé e da transparência, são a versão digital daquelas antigas e agressivas vendas de porta em porta.


A questão central, portanto, não é se o CDC é bom ou ruim, mas se sua estrutura, elaborada para um mundo analógico, possui a flexibilidade necessária para a era do consumo digital. Como provar um dano causado por um algoritmo que opera de forma autônoma e secreta? Como garantir a transparência de um sistema de IA cuja lógica é incompreensível até para seus criadores? O Procon, o Ministério Público e o Poder Judiciário têm atuado para enfrentar essas questões, interpretando a lei à luz dos novos desafios, mas a complexidade é enorme.


Assim, ao celebrarmos os 35 anos do Código, a pergunta "Temos o que comemorar?" ganha um "sim", mas com um olhar atento para o futuro. O CDC nos deu as ferramentas, e a celebração é um lembrete de que a batalha pela dignidade do consumidor na era digital continua. É nossa responsabilidade garantir que a tecnologia sirva à lei, e não o contrário.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Nayara Queiroz
Sobre o blog/coluna
Direito, família e bom senso. Com um olhar atento às Relações de Consumo e ao Direito de Família, esta coluna traduz o universo jurídico em orientações práticas para o seu dia a dia. Uma coluna semanal com reflexões sobre temas jurídicos atuais e os valores que fortalecem a sociedade sul-matogrossense.
Acompanhe as publicações semanais.
Ver notícias
Publicidade