Saúde SAÚDE
Calor eleva risco de AVC durante o verão, alerta médico
Especialista explica como altas temperaturas estão ligadas a mais casos da doença
21/12/2025 10h47 Atualizada há 6 meses
Por: João Paulo Ferreira
Foto: Bruno Rezende

O calor intenso registrado no verão contribui para o aumento dos casos de acidente vascular cerebral (AVC). O alerta foi feito pelo neurocirurgião e neurorradiologista intervencionista Orlando Maia, do Hospital Quali Ipanema, ao explicar como as altas temperaturas interferem diretamente no funcionamento do organismo e favorecem a formação de coágulos.

Segundo o médico, o calor provoca uma desidratação natural das células, o que torna o sangue mais espesso. “E isso tem um maior potencial de gerar AVC, porque o AVC está ligado a coágulo”, afirmou. Esse processo aumenta a chance de trombose, que é a formação de coágulos capazes de obstruir vasos sanguíneos no cérebro.

Existem dois tipos principais de AVC. O hemorrágico ocorre quando há o rompimento de um vaso cerebral e representa cerca de 20% dos casos. Já o AVC isquêmico, mais comum, acontece quando um coágulo entope um vaso. De acordo com Maia, a desidratação típica do verão favorece justamente esse segundo tipo, ao concentrar o sangue e facilitar a formação de trombos.

Outro fator associado ao calor é a alteração da pressão arterial. “A nossa pressão arterial no verão tem uma tendência, pelo calor, a diminuir por conta da vasodilatação. Ou seja, nossos vasos, para poder compensar o calor, se dilatam. E essa dilatação causa uma diminuição da pressão, o que favorece também a formação de coágulo e de uma outra situação cardiológica, chamada arritmia. É o coração batendo fora do ritmo”, explicou.

Quando ocorre a arritmia, o coração pode formar coágulos que entram na circulação sanguínea. Maia destacou que cerca de 30% de todo o sangue que sai do coração é direcionado ao cérebro, o que aumenta o risco de esses coágulos provocarem um AVC.

O médico também chamou atenção para mudanças de comportamento comuns no verão. O período de férias costuma vir acompanhado de menor cuidado com a saúde, aumento do consumo de bebida alcoólica e até esquecimento do uso regular de medicamentos. A bebida alcoólica, além de intensificar a desidratação, eleva a possibilidade de arritmia, ampliando o risco de um evento vascular cerebral.

Doenças típicas da estação também contribuem para esse cenário. Gastroenterites relacionadas ao calor, episódios de diarreia, insolação e esforço físico excessivo acabam se somando aos demais fatores. “Tudo isso associado faz com que a pessoa tenha uma maior tendência a ter um AVC no verão”, enfatizou.

O tabagismo foi apontado como outro elemento relevante. “O tabagismo hoje é uma das maiores causas externas para AVC”, afirmou Maia. Segundo ele, o fumo contribui para o surgimento de aneurismas, condição fortemente ligada à nicotina. “A nicotina bloqueia uma proteína do nosso vaso chamado elastina, diminui a elasticidade do vaso, então pode favorecer ao AVC hemorrágico, como também causa um processo inflamatório no vaso em si, favorecendo a aderir as placas de colesterol a longo prazo e o entupimento dos vasos. Então, o tabaco é diretamente proporcional à situação tanto do AVC hemorrágico como do AVC isquêmico”, explicou.

O especialista observou ainda que o estilo de vida moderno, aliado ao tabagismo e ao controle inadequado de doenças crônicas, tem feito crescer o número de casos em pessoas com menos de 45 anos. No Hospital Quali Ipanema, por exemplo, o atendimento chega a cerca de 30 pacientes por mês no verão, o dobro do registrado em outras épocas do ano.

Maia ressaltou que o AVC é extremamente comum. “Se você pegar o AVC como uma doença isolada, esquecendo que há vários tipos de câncer que podem ser separados, a doença mais frequente na humanidade é o AVC. E uma em cada seis pessoas vai ter um AVC na vida”, afirmou. Ele destacou a importância de observar o histórico familiar, já que não se trata de casos isolados.

O AVC está entre as principais causas de morte e incapacidade no mundo. “Quando não mata, deixa a pessoa incapaz. Eu digo que é uma doença que não é na pessoa, mas na família, porque pelo menos duas pessoas vão ter que se dedicar a cuidar daquele doente com AVC”, disse. Segundo o médico, as sequelas podem comprometer a fala, a locomoção, a visão e até a capacidade de se alimentar sozinho, dependendo da área do cérebro afetada.

Para Maia, a prevenção é fundamental. “É uma doença que a gente tem que gritar para todo mundo ouvir que há prevenção e tratamento. A prevenção [envolve] o hábito de vida saudável, prática de exercício físico regular pelo menos três vezes na semana, alimentação saudável, controle da pressão arterial, tomar os remédios direitinho e não fumar. E existe tratamento”, destacou.

Ele explicou que, no passado, o atendimento se limitava basicamente ao controle da pressão arterial. Hoje, há duas formas principais de tratamento. A primeira é a infusão de um medicamento intravenoso que dissolve o coágulo. “Você coloca um remédio na veia que dissolve o coágulo e, na maioria dos casos, o remédio resolve”, afirmou.

Quando essa opção não é suficiente ou em situações específicas, os médicos utilizam um cateter introduzido pela virilha para retirar o coágulo por aspiração direta dentro do vaso, restabelecendo a circulação cerebral. Nesse procedimento, muitos pacientes conseguem retornar ao estado normal.

Maia esclareceu que o uso do medicamento tem limite de tempo. “Só pode ser dado até quatro horas e meia desde o início dos sintomas”. Já o procedimento com cateter pode ser realizado, em casos selecionados, até 24 horas após o início dos sintomas. Em ambos os casos, o tempo é decisivo para o sucesso do tratamento.

Os principais sinais de alerta incluem paralisia súbita de um membro ou de um lado do corpo, fala enrolada, perda de visão de um dos lados, tontura intensa ou perda repentina da consciência. “Esses são os sintomas principais de uma pessoa que está tendo um AVC. Ela vai ter dificuldade de movimento, de fala, de visão ou uma perda súbita da consciência”, explicou.

Segundo o médico, o AVC costuma surgir de forma repentina e exige atendimento imediato. “É uma doença que acontece, na maioria das vezes, de uma hora para outra. Nessa situação, não tem que esperar nada. A pessoa tem que ser levada a um hospital porque é uma emergência médica”, finalizou.