Saúde SAÚDE
Estudo detalha diferenças entre sintomas da febre do Oropouche e da dengue
Pesquisa aponta semelhanças clínicas, mas identifica sinais e alterações laboratoriais que ajudam no manejo
01/02/2026 10h21 Atualizada há 5 meses
Por: João Paulo Ferreira

Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros durante o surto de febre do Oropouche registrado em 2024 analisou diferenças clínicas e laboratoriais entre a doença e a dengue, com foco em regiões onde os dois vírus circulam simultaneamente. O objetivo foi apoiar o diagnóstico e orientar condutas diante de quadros febris semelhantes.

A pesquisa, intitulada Perfis clínicos e laboratoriais da doença do vírus Oropouche no surto de 2024 em Manaus, Amazônia Brasileira, foi publicada na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases. Os autores concluíram que, apesar da sobreposição de sintomas, há padrões que podem auxiliar as equipes de saúde.

Segundo a médica pesquisadora Maria Paula Mourão, da Rede Colaborativa de Vigilância Ampliada e Oportuna (Revisa), a febre do Oropouche tende a provocar dor de cabeça mais intensa, maior frequência de dores articulares e manchas na pele mais disseminadas. Exames laboratoriais também apontaram alterações específicas, como elevação discreta de enzimas hepáticas e diferenças na resposta imunológica.

Na dengue, por outro lado, os dados indicaram maior redução das plaquetas, além de risco aumentado de sangramentos e choque. Ainda assim, a pesquisadora alertou que os sintomas isolados não permitem diferenciar as doenças com segurança. Em entrevista à Agência Brasil, ela afirmou que a conduta clínica deve priorizar a identificação precoce de sinais de gravidade, independentemente do diagnóstico inicial.

Entre os sinais que exigem atenção imediata estão dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, confusão mental e piora progressiva do estado geral. Gestantes, crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas devem buscar avaliação médica ao primeiro episódio de febre, mesmo quando os sintomas parecem leves.

Linhagem com maior virulência

O estudo integrou ações da Rede de Vigilância em Saúde Ampliada (Revisa), com apoio do Instituto Todos pela Saúde. Os pesquisadores acompanharam pacientes com doença febril aguda atendidos na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), em Manaus (AM), por até 28 dias, com avaliações clínicas, exames laboratoriais e testes para dengue, Oropouche e outras arboviroses.

A análise genética indicou que o surto de 2024 foi causado por uma linhagem reordenada do vírus Oropouche, já identificada anteriormente no Brasil, mas com características associadas a maior virulência e capacidade de replicação. De acordo com os autores, isso pode explicar a intensidade e a abrangência do surto observado em Manaus, somado a fatores ambientais, climáticos e à presença do vetor.

Transmissão e desafios no controle

A febre do Oropouche é transmitida principalmente pelo inseto Culicoides paraensis, conhecido como maruim ou mosquito-pólvora, presente em diferentes regiões do país. O vírus é adquirido pelo inseto ao picar pessoas ou animais infectados e pode ser transmitido após um período de incubação no vetor.

A pesquisadora Bárbara Chaves, do Instituto Todos pela Saúde, explicou que tanto a dengue quanto a febre do Oropouche são arboviroses, mas apresentam desafios distintos de controle. A dengue mantém alta incidência no Brasil em razão da ampla presença do Aedes aegypti, favorecida pelo clima e pelo ambiente urbano.

Já a febre do Oropouche ganhou maior visibilidade nacional a partir de 2024, com notificações em diversos estados. A expansão dos casos pode estar associada a mudanças no uso da terra, como desmatamento e avanço da atividade agrícola, além de condições ambientais favoráveis ao vetor, que se reproduz em locais úmidos e ricos em matéria orgânica em decomposição.

Para os pesquisadores, a redução dos casos passa pelo aprimoramento do diagnóstico, do monitoramento epidemiológico e da vigilância genética dos vírus. No caso da dengue, estratégias como eliminação de criadouros, uso do método Wolbachia e vacinação já integram as políticas de controle. Para o Oropouche, o enfrentamento exige conhecimento mais detalhado do vetor e vigilância contínua em áreas de risco.