Saúde SAÚDE
Pesquisa do HU de Campo Grande aponta que remédio à base de maconha não tem eficácia comprovada contra ansiedade
Revisão científica avaliou estudos recentes e concluiu que as evidências disponíveis foram insuficientes para indicar o tratamento
02/02/2026 14h10
Por: João Paulo Ferreira

Uma revisão científica conduzida no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/Ebserh) avaliou o uso do canabidiol (CBD) no tratamento de transtornos de ansiedade e concluiu que as evidências disponíveis na literatura ainda são insuficientes para sustentar a indicação da substância como terapia eficaz. O estudo foi desenvolvido no âmbito da residência médica em Psiquiatria, em meio ao avanço da regulamentação da cannabis medicinal no Brasil.

A pesquisa consistiu em uma revisão integrativa da literatura científica sobre o tema, conduzida pela médica residente Flávia Delgado, sob orientação do psiquiatra do Humap-UFMS, Kleber Vargas. Foram analisados artigos publicados entre 2020 e 2025, em português e inglês, a partir de descritores relacionados ao canabidiol e aos transtornos de ansiedade.

De acordo com os resultados, há escassez de estudos bem conduzidos metodologicamente que demonstrem eficácia clínica significativa do CBD para ansiedade. A conclusão acompanha o posicionamento de outras revisões sistemáticas e metanálises recentes, que apontam limitações importantes nos dados disponíveis.

“Existem poucos estudos com metodologia adequada que demonstrem eficácia clínica relevante do canabidiol para ansiedade. As evidências atuais não permitem que ele seja indicado como tratamento, o que exige cautela tanto na prescrição quanto na formulação de políticas públicas”, afirmou Kleber Vargas.

O psiquiatra destacou que, embora o sistema endocanabinoide tenha papel biológico relevante na modulação de neurotransmissores, isso não significa que os derivados da cannabis tenham eficácia comprovada para diferentes condições psiquiátricas. Segundo ele, decisões terapêuticas devem ser baseadas em evidências científicas consistentes, ética e método.

O estudo também apontou lacunas relacionadas à segurança do uso do canabidiol, especialmente em longo prazo. Apesar de o CBD aparentar baixo risco imediato, ainda faltam pesquisas que avaliem efeitos do uso crônico, impactos em populações específicas, como gestantes, e possíveis desfechos ao longo dos anos.

A análise foi divulgada em um contexto de mudanças recentes na regulamentação brasileira. Na última semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma resolução que regulamenta o cultivo da cannabis medicinal exclusivamente por pessoas jurídicas, como empresas, universidades e associações, para fins medicinais e farmacológicos. O cultivo por pessoas físicas segue proibido, assim como qualquer uso recreativo.

A nova norma estabelece limites rigorosos para a produção, incluindo teor máximo de THC de até 0,3%, conforme determinação judicial, e atende a uma solicitação do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A Anvisa também ampliou o acesso a terapias à base de cannabis ao autorizar a venda de fitofármacos com canabidiol em farmácias de manipulação, o registro de medicamentos para uso bucal, sublingual e dermatológico e a ampliação do perfil de pacientes que podem utilizar produtos com maior concentração de THC, restrita a casos de doenças graves e debilitantes.

Para o psiquiatra do Humap-UFMS, a regulamentação pode facilitar o acesso a insumos para pesquisas científicas, especialmente em universidades e hospitais universitários, mas não altera o cenário atual das evidências. Segundo ele, a única indicação com comprovação científica consolidada para derivados da cannabis é o tratamento da epilepsia refratária.

Em relação a outras condições, como ansiedade, depressão, dor crônica, transtornos do espectro autista e demências, os estudos disponíveis não demonstram eficácia consistente. O médico também alertou para riscos associados ao uso indiscriminado da planta, especialmente da maconha in natura, como dependência, crises de ansiedade, alterações cognitivas, aumento do risco de psicoses e outros efeitos, sobretudo quando o uso ocorre na adolescência ou em pessoas predispostas.

O trabalho reforça o papel do Humap-UFMS/Ebserh na produção de conhecimento científico e na formação de profissionais de saúde, ao associar assistência, ensino e pesquisa. Segundo os pesquisadores, a divulgação de estudos desse tipo contribui para um debate mais qualificado sobre terapias emergentes e para decisões clínicas e regulatórias baseadas em evidências.