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Helena Meirelles: A mulher que domou a viola

Helena Meirelles nasceu numa sexta-feira 13, cresceu entre peões e cobras do Pantanal, fugiu de casa aos 15 anos para tocar um instrumento proibido para mulheres e só foi reconhecida aos 69, quando uma revista americana a colocou ao lado de Eric Clapton. Esta é a história da maior violeira que o Brasil já produziu.

21/03/2026 às 09h40 Atualizada em 21/03/2026 às 10h21
Por: Marcelo Tognini
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[Foto: Helena Meirelles tocando sua viola dinâmica Del Vecchio, com a palheta de chifre de boi que ela mesma fabricava]
[Foto: Helena Meirelles tocando sua viola dinâmica Del Vecchio, com a palheta de chifre de boi que ela mesma fabricava]

A palheta era de chifre de boi. Helena a talhava com uma faca, sempre numa sexta-feira da paixão, antes do sol nascer, debaixo de uma figueira. Aprendeu o ritual com os paraguaios que frequentavam a fazenda do avô, lá pelos anos 1930, quando o Mato Grosso ainda era um só e o mundo de uma menina cabia entre o curral e a cozinha. Décadas depois, aquela mesma palheta rústica entraria para um pôster da revista americana Guitar Player, ao lado dos nomes mais reverenciados da música mundial. A única palheta brasileira entre 101.

Helena Pereira da Silva Meirelles nasceu em 13 de agosto de 1924, numa sexta-feira 13. A família vivia na Fazenda Jararaca, no município de Bataguassu, a mais de 300 quilômetros de Campo Grande, na margem direita do rio Paraná. O registro civil saiu tardio, na capital, o que gerou uma confusão que persiste até hoje sobre seu local exato de nascimento. Mas foi na Jararaca, entre peões, comitivas de gado e a poeira da Estrada Boiadeira, que Helena se fez.

O pai, Ovídio, era paraguaio. A mãe, Ramona, mato-grossense. A tataravó, uma indígena capturada nos matos do Paraná. A avó paterna, paraguaia. O avô materno, também paraguaio. O avô paterno, mineiro. Helena carregava no sangue a fronteira que o Mato Grosso do Sul carrega no mapa. No documentário “Dona Helena”, ela mesma resumiu essa genealogia com a franqueza que a acompanhou por toda a vida: “Eu tenho sangue de tudo quanto é bicho… e bicho perigoso, venenoso. Porque eu fui cobra… fui braba.”

A menina que ouvia escondida

Na década de 1930, o avô de Helena promovia reuniões musicais na fazenda. Vinham violeiros paraguaios, gente que tocava guarânias e polcas com uma afinação que não existia nos livros, passada de ouvido em ouvido, de geração em geração. O tio Leôncio, violeiro reconhecido na região, era presença certa. Helena ficava por perto. Observava. Gravava na memória a posição dos dedos, o jeito de segurar a palheta, o som que cada corda soltava quando tocada de um modo ou de outro.

Mulher não tocava instrumento. Era a regra. Não havia exceção. O conservadorismo dos anos 1930, no interior do que viria a ser o Mato Grosso do Sul, não deixava margem para negociação. O destino de Helena, como o de qualquer menina da fazenda, era a casa, o fogão, o casamento arranjado.

Ela aprendeu a tocar escondida. Sozinha. Sem professor, sem método, sem partitura. Analfabeta, não lia uma nota sequer. Ouvia. E o que ouvia, repetia na viola até que soasse igual ou melhor. Aos oito anos, tocou pela primeira vez em público, na própria Fazenda Jararaca, acompanhada pelo tio Leôncio. A música se chamava “Chuita”. Era 1932.

A fuga

Aos 15 anos, Helena fugiu de casa. O motivo era a viola. A família havia tentado de tudo para impedir que ela seguisse tocando. Não adiantou. A menina que ouvia escondida se transformou na adolescente que escolheu a música ao invés do silêncio que esperavam dela.

Casou-se pela primeira vez aos 17, por imposição dos pais. Largou o marido pouco depois e juntou-se a um paraguaio que tocava violão e violino. Separou-se novamente. Casou-se uma terceira vez. No total, foram três casamentos e onze filhos. Helena paria sozinha, no mato, sem ajuda. Trabalhava como lavadeira, parteira, benzedeira. E tocava. Sempre tocava.

Começou nos bailes de beira de estrada, nas festas juninas iluminadas a lampião, nos salões de chão batido onde peões bebiam cachaça e dançavam até o dia clarear. Depois, passou a tocar nos bordéis do interior. Gostava. Dizia que na zona se divertia com a farra dos peões e não via o tempo passar. Contava que nunca foi desrespeitada, mas que viu homens mexerem cerveja com o cano do revólver 38 e baterem nas mulheres com guaiaca e espora.

Era um mundo bruto. Helena sobrevivia nele com a viola como escudo e como sustento. Tocava polcas paraguaias, chamamés, fandangos, rasqueados. Os ritmos da fronteira, que não cabiam em nenhuma categoria limpa dos manuais de música, mas que traduziam com precisão o que era viver naquele pedaço de Brasil onde três países se encontram.

Os trinta anos de silêncio

Na década de 1960, Helena e seu terceiro marido partiram para regiões remotas do Pantanal. O que aconteceu nos trinta anos seguintes permanece envolto em relatos fragmentados, lendas e lacunas. Sabe-se que ela continuou tocando. Sabe-se que trabalhou como lavadeira. Sabe-se que bebia. Sabe-se que convivia com os bichos do Pantanal com a naturalidade de quem não conheceu outro mundo.

São três décadas em que Helena Meirelles simplesmente desapareceu do convívio da família. Nenhum registro. Nenhuma gravação. Nenhum endereço fixo. Uma mulher com uma viola, perdida na imensidão da planície pantaneira, tocando para quem quisesse ouvir em lugares que não tinham nome nos mapas.

Em meados da década de 1980, a irmã Natália a encontrou por acaso, numa praça de Piquerubi. Helena estava em estado de pobreza, fisicamente fragilizada, mas havia largado a cachaça e o fumo. Natália a levou para a Grande São Paulo. Foi ali, na casa da família, que a violeira reencontrou o sobrinho Mário de Araújo.

Mário era músico. Pediu que a tia tocasse alguma coisa. Helena pegou a viola que os sobrinhos lhe ofereceram e tocou “Chuita”, a mesma música de 1932, a primeira que havia apresentado em público na Fazenda Jararaca, mais de meio século antes. O sobrinho quis chorar. Décadas de estrada, de miséria, de abandono, não tinham arrancado um grama de talento daquelas mãos.

O mundo descobre Helena

Mário de Araújo se tornou o primeiro produtor da tia. Gravou fitas cassete com as músicas de Helena num estúdio improvisado e começou a enviá-las para rádios e gravadoras. A resposta do mercado fonográfico brasileiro foi morna. Achavam que Helena era talentosa, mas que não tinha o perfil desejado pela mídia. Tinha mais de sessenta anos, era analfabeta, cabocla, sem dentes, sem o verniz que a indústria exigia.

"Helena era talentosa, mas que não tinha o perfil desejado pela mídia"

Inezita Barroso foi uma das primeiras a reconhecê-la. Convidou Helena para se apresentar no programa Mutirão, na Rádio da USP, e depois no Viola, Minha Viola, da TV Cultura. A violeira começava a ganhar visibilidade no circuito da música de raiz, mas o grande salto ainda estava por vir.

Mário de Araújo, sem muitas esperanças, enviou uma das fitas cassete para a revista americana Guitar Player, uma das publicações mais influentes do mundo no universo dos instrumentos de corda. O material chegou às mãos do editor e crítico Jas Obrecht. O que aconteceu depois mudou a história de Helena Meirelles.

Em 1993, a Guitar Player elegeu Helena como instrumentista revelação do ano. A publicação a colocou ao lado de nomes como Eric Clapton, Jimmy Page, B.B. King e Carlos Santana. A palheta de chifre de boi da pantaneira figurou no pôster das 101 melhores palhetas do mundo. Helena tinha 69 anos. Nunca havia se apresentado num teatro. Não sabia ler. Não sabia escrever.

E o mundo acabava de descobrir que, nas margens do rio Paraná, uma mulher tocava viola como poucos seres humanos na face da Terra. A valorização, como tantas vezes acontece com artistas brasileiros, veio primeiro de fora. Só depois o Brasil passou a olhar para Helena com a atenção que ela merecia desde sempre.

A discografia tardia

Em 1994, aos 70 anos, Helena lançou seu primeiro disco de estúdio pelo selo Eldorado. O álbum, intitulado simplesmente “Helena Meirelles”, trazia composições próprias como “Fiquei Sozinha” e “Quatro Horas da Madrugada”, além de clássicos do cancioneiro popular como “Chalana” e “Araponga”. A produção era de Mário de Araújo. Os arranjos, enxutos: viola, violão, violão baixo.

O som da fronteira, sem filtro.
Em 1996, veio o segundo álbum, “Flor da Guavira”, com músicas instrumentais de sua autoria. Em 1997, o terceiro disco, “Raiz Pantaneira”, com participação de Sérgio Reis na faixa “Guiomar”. Os três álbuns, somados, venderam mais de 80 mil cópias.

Em 2002, Helena gravou seu quarto e último disco, “Helena Meirelles ao Vivo”, registrado em Campo Grande, com destaque para a composição inédita “Flor Pantaneira”, que contou com a participação de Zezinho Nantes.

Havia uma curiosidade nas composições de Helena. Ela não se preocupava em dar nome às músicas. As melodias nasciam completas em sua cabeça, passavam para as cordas da viola e ali ficavam, sem título, até que o filho Francisco da Costa Machado, violonista que a acompanhava nos shows, batizasse cada uma delas.

A técnica de ninguém

O instrumento de Helena não era exatamente uma viola caipira, como a tradição paulista e mineira consagrou. Era uma viola dinâmica fabricada pela Del Vecchio, com um disco de metal no centro do bojo que produzia um timbre metálico e anasalado. O mesmo tipo de viola usado por repentistas e cantadores do Nordeste. Nas mãos de Helena, soava como nenhuma outra.

Sua técnica era inclassificável. Usava uma afinação diferente, herdada dos violeiros paraguaios das primeiras décadas do século XX. Preferia tocar com o instrumento na posição horizontal. Priorizava os solos, num estilo que nada tinha a ver com a tradição da viola caipira do Sudeste. Alcançava mais de cem notas por minuto. Poucos violeiros conseguiam reproduzir o que ela fazia. Os que tentaram, como Milton Araújo e Rainer Miranda, desenvolveram a chamada “viola dinâmica”, um estilo que permanece raro e difícil de executar.

Mestres como Roberto Corrêa e Almir Sater reconheceram publicamente a grandeza de Helena. Corrêa definiu com precisão o lugar dela na música brasileira: Helena representava a região fronteiriça do Paraguai, norte da Argentina e Mato Grosso do Sul, que culturalmente é um território só, repleto de polcas, chamamés, guarânias e rasqueados. Ela trazia os sons da fronteira, do ermo, de um lugar que o Brasil desconhecia. Sua maneira de tocar era simples, mas sua música não.

O que ficou

Helena Meirelles morreu em 28 de setembro de 2005, em Campo Grande, vítima de parada cardiorrespiratória. Tinha 81 anos. Seu sepultamento reuniu violeiros de todo o estado, que tocaram juntos num concerto improvisado de despedida. Almir Sater, Pereira da Viola, Rolando Boldrin e Roberto Corrêa estiveram entre os que prestaram homenagem.

Em 2003, ainda em vida, Helena viu ser inaugurada a Concha Acústica Helena Meirelles, no Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande, ao lado do Museu de Arte Contemporânea. Em 2004, estreou o documentário “Helena Meirelles, a Dama da Viola”, dirigido por Francisco de Paula, com narração de Rubens de Falco. A trilha sonora foi escolhida pela própria Helena. O filme foi aplaudido de pé no Festival Rio de Cinema, no Cine Odeon. Helena, que nunca havia entrado numa sala de projeção, assistiu a um filme sobre sua própria vida.

Concha Acústica Helena Meirelles em Campo Grande
Conha acústica Helena Meirelles em Campo Grande, capital do Mato Groso do Sul

Em 2019, a cidade de Bataguassu inaugurou um museu em sua homenagem. Em agosto de 2024, o governo de Mato Grosso do Sul promoveu uma série de eventos para celebrar o centenário da violeira, com sessão solene na Assembleia Legislativa, exposição no Museu da Imagem e do Som, apresentações musicais e o Festival da Canção das Escolas Estaduais, batizado de Prêmio Helena Meirelles 100 Anos.

Dois documentários, um museu, uma concha acústica, um festival com seu nome. E ainda assim, como observou a coordenadora do espaço que leva seu nome, muitos jovens sul-mato-grossenses não sabem quem Helena Meirelles foi. Descobrem aos poucos, como o mundo descobriu: tarde, mas com espanto.

Helena gostava de dizer que, quando ouvia um burro urrar ou o toque de um berrante, sentia vontade de voar no vento e cair no meio da boiaderama. Morreu sem nunca ter aprendido a ler. Morreu sem jamais ter precisado de uma partitura. Morreu com a viola que a fez fugir de casa, que a levou aos bordéis da Estrada Boiadeira, que a enterrou no silêncio do Pantanal por trinta anos e que, quando o mundo finalmente prestou atenção, se revelou uma das cem melhores vozes de cordas do planeta.

A palheta era de chifre de boi. O talento era de Helena. E o Brasil quase não ficou sabendo.

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