
Zacarias Mourão tinha os pés no barro e um arbusto nas mãos. Onze anos, magro, coroinha do Padre Chico, voltando de uma caçada às margens do rio Coxim. O padre o chamava de Tió, nome de pássaro. O menino gostava. Achava que combinava com ele, com aquele jeito de não parar quieto.
Naquela tarde de 1939, Tió carregou a muda de cedro até a esquina das ruas Herculano Pena e João Pessoa, cavou a terra com as mãos, enfiou as raízes no chão e bateu a terra de volta. Pronto. Estava feito.
A filha de Zacarias, Ligia Mourão, conta que ele explicou o gesto anos depois com a naturalidade de quem não se acha especial. Tinha conversado com o padre sobre Deus e natureza. Queria arborizar Coxim do jeito que o lugar merecia. Plantou o cedro como se plantasse uma ideia. Não fazia planos para ele. Não imaginava o que viria.
O menino não ficou para ver. Aos quinze anos, Tió decidiu ser padre. Mudou-se para Campo Grande, passou dois anos no seminário, percebeu que não era aquilo. Largou a batina. Entrou na Aeronáutica. Aos vinte e um, embarcou para Petrópolis, no Rio de Janeiro. Durou pouco. Trancava-se no quarto e escrevia sobre Coxim. A cidade não o largava. Ele não conseguia largar a cidade.
Foi para São Paulo. Conseguiu emprego no DER, o Departamento de Estradas e Rodagem, operando máquinas pesadas. Fez carreira. Saiu como policial rodoviário federal. Mas o homem que abria estradas de asfalto passava as noites compondo versos, frequentando estúdios, batendo na porta de gravadoras. Cursou jornalismo na Cásper Líbero. Venceu um concurso de poesia na Rádio Bandeirantes e ganhou um programa. O rádio abriu caminho para tudo o que veio depois.
Em 1959, Zacarias voltou a Coxim. Tinha trinta e um anos, bigode fino, olhar de quem carrega saudade como outros carregam documento no bolso. Caminhou até a esquina onde plantara o arbusto e encontrou uma árvore. O cedro tinha engrossado o tronco, aberto copa, criado sombra. Ligia conta que o pai abraçou a árvore e chorou. Ficou ali, em silêncio, com os braços ao redor do tronco, como quem reencontra alguém que não precisa de palavras.
Voltou para São Paulo com a letra pronta. Cada verso saiu daquele abraço. Procurou o amigo Goiá, compositor tarimbado, e pediu que colocasse melodia na saudade que ele tinha escrito. Goiá musicou. Nascia “Pé de Cedro”.
A dupla Tibagi e Miltinho gravou a canção nos anos 1960. O sucesso veio rápido. Num Brasil que se esvaziava do campo para a cidade, que jogava milhões de pessoas em ônibus rumo a São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, uma música sobre um homem que volta para abraçar a árvore que plantou na infância tocou um nervo. Não era só saudade. Era pertencimento. Era a pergunta que muita gente fazia baixinho, à noite, no barraco da periferia: existe ainda um lugar que é meu?
Em 1975, Sérgio Reis regravou “Pé de Cedro” para um disco que reunia uma canção de cada região do país. A árvore de Coxim representou o Mato Grosso inteiro. As rádios nacionais tocaram. As rodas de viola adotaram. A canção atravessou gerações sem precisar de empurrão.
Zacarias, nesse tempo, acumulava ofícios como quem não sabe ficar parado. Trabalhou como radialista na Bandeirantes, na Excelsior, na Nacional. Dirigiu o setor artístico sertanejo da Bandeirantes e lançou nomes que ninguém conhecia. Produziu discos na Polygram, na Chantecler, na RCA. Escrevia uma coluna nas revistas “Melodias” e “Moda e Viola” com o título “Venenos do Zacarias”, onde comentava o mundo artístico com humor que não poupava ninguém. Suas composições passaram pelas vozes de Tião Carreiro e Pardinho, Irmãs Galvão, Zilo e Zalo. Compunha guarânias e rasqueados que traziam a fronteira com o Paraguai dentro do ritmo.
Esperto e insistente, aproveitava cada microfone, cada palco, cada conversa para falar de Coxim e do Mato Grosso do Sul. Lançou a dupla Amambay e Amambai. Abriu espaço para Dino Rocha. Transformou-se numa espécie de embaixador informal da cultura sul-mato-grossense em São Paulo, num tempo em que o estado mal existia no mapa mental do país.
Em 1981, Zacarias voltou de vez. Instalou-se em Campo Grande, trabalhou na Assembleia Legislativa, mas o serviço público era só o endereço do contracheque. A vida estava no rádio, nos palcos, nos bastidores. Apresentava o programa “Porteira Velha” na Rádio Cultura. Sentava-se à mesa de jurado do “Nossa Terra Nossa Gente”, na TV Campo Grande. Fundou a ZN Produções. Cobrava de quem quisesse ouvir que os artistas regionais mereciam mais espaço, mais dinheiro, mais respeito.
Coxim, ele repetia para quem quisesse ouvir, era um pedacinho do céu.
A madrugada de 23 de maio de 1989 era uma terça-feira. Zacarias dormia em sua casa no Jardim TV Morena, em Campo Grande. Tinha sessenta e um anos. Alguém entrou e lhe cravou uma faca na altura do coração. Vizinhos o encontraram. Os socorristas o levaram à Santa Casa. A cirurgia de emergência não deu conta. Zacarias morreu na mesa de operação.
A notícia percorreu o estado inteiro antes do amanhecer. O homem que cantara a saudade de voltar para casa morrera dentro da própria casa. O compositor que transformara uma árvore em símbolo de uma terra inteira tombara por uma lâmina no peito.
A polícia abriu inquérito. Ouviu testemunhas. Recolheu o que havia para recolher. E parou. O crime não produziu suspeito, não produziu acusado, não produziu julgamento. Trinta e sete anos depois, o assassinato de Zacarias Mourão segue sem resposta. O inquérito, se ainda existe, não fala.
A morte de Zacarias deixou órfão um projeto que ele acalentava havia anos. Queria transformar o entorno do pé de cedro, no centro de Coxim, numa praça pública. Um espaço com o nome da árvore, aberto ao povo que passava por ali todos os dias sem saber que aquele cedro tinha história.
Os amigos e a família assumiram a tarefa. Ergueram um busto de Zacarias ao lado da árvore. A prefeitura construiu a praça. O cedro ganhou placa, proteção, visibilidade. Coxim passou a contar a história do compositor para os turistas que chegavam atraídos pelo rio Taquari e pela pesca. O pé de cedro virou patrimônio cultural do município.
Em 2006, um raio partiu a árvore durante uma tempestade. O tronco rachou. Parte da copa desabou. Funcionários da prefeitura amarraram o que restava com cabos de aço para impedir o tombamento. Depois veio o fogo. Um vândalo queimou parte do tronco. As pragas atacaram a madeira ferida. O calçamento novo, feito numa reforma da praça, sufocou as raízes. O cedro apanhava de todos os lados e continuava ali, sustentado na marra, teimando como só as coisas do interior teimam.
Em dezembro de 2020, o muralista Eduardo Kobra percorreu 1.200 quilômetros de carro, de São Paulo a Coxim, para pintar o rosto de Zacarias Mourão numa parede da praça. O mural tem seis metros de altura por quase vinte de largura. Nas cores vibrantes que marcam o trabalho de Kobra, o compositor aparece em proporções que nunca teve em vida, olhando para a árvore que plantou menino. Kobra escolheu Zacarias para inaugurar um projeto de valorização das culturas regionais. Disse que o compositor representava a força de quem escreve sobre a própria aldeia. Durante quatro dias de trabalho, famílias de Coxim passavam tardes inteiras sentadas na praça, assistindo a pintura ganhar forma. Ligia Mourão enviou um vídeo ao artista, agradecendo. Disse que a homenagem resgatava o que seu pai mais fez durante a vida: transmitir emoções e valorizar a cultura de sua terra.
Em 2022, uma estátua de bronze em tamanho real do compositor foi instalada à sombra do cedro. Almir Sater e Sérgio Reis fizeram show na inauguração. A árvore, nessa altura, já não dava folhas. Mas ainda estava de pé.

O biólogo Evaldo Benedito de Souza assinou o laudo em abril de 2024. O documento confirmava o que os moradores de Coxim já suspeitavam ao olhar para o tronco seco, os galhos nus, a ausência completa de verde. O pé de cedro estava morto. Oitenta e cinco anos depois de um menino de onze anos enfiar suas raízes na terra, a árvore que virara música, que virara hino, que virara praça, que virara mural, que virara estátua, que virara símbolo de uma cidade inteira, não vivia mais.
O laudo alertava para o risco de queda de galhos e recomendava a retirada do tronco. A Câmara Municipal convocou audiência pública para maio. O vereador Abilio Vaneli, que desde janeiro cobrava providências do Executivo, acompanhou o processo. O prefeito Edilson Magro disse à imprensa local que um biólogo paulista já havia alertado, em visita a Coxim em junho de 2023, que a árvore se aproximava do fim. A combinação de idade avançada, os danos do raio de 2006 e o calçamento que asfixiou as raízes reduziu a vida do cedro a um fio que finalmente se rompeu.
Em junho de 2024, a prefeitura fez a poda técnica do tronco morto.
Ao redor, dois cedros jovens, plantados por artistas e produtores culturais anos antes, crescem saudáveis na mesma praça. São filhos da árvore original. Sementes colhidas do cedro de Zacarias, espalhadas por Coxim e por outros cantos do estado. Moacir Lacerda, ativista cultural e fundador do Grupo Acaba, lançou com outros artistas uma campanha para plantar cem mudas de cedro pelos municípios de Mato Grosso do Sul. Geraldo Espíndola, Zedu, Rodrigo Teixeira, Claudia Finotti, a própria Ligia Mourão e mais de uma dezena de nomes da cultura regional aderiram.
Coxim tem trinta e três mil habitantes e vive à margem do encontro de dois rios, o Taquari e o Coxim, na porta norte do Pantanal. A cidade se conhece por inteiro. Sabe os nomes, os parentescos, as histórias que cada família carrega. Sabe, também, que Zacarias Mourão morreu de faca no peito e que ninguém pagou por isso.
A praça continua lá, na esquina da Herculano Pena com a João Pessoa, perto do rio Taquari. O mural de Kobra resiste ao sol forte do norte sul-mato-grossense. A estátua de bronze olha para o lugar onde o cedro viveu. Os dois cedros jovens estendem galhos novos, sem pressa, fazendo sombra miúda no chão de Coxim.
Ligia Mourão, filha do compositor, compositora ela mesma, jornalista e radialista, segue cuidando da memória do pai. Mora em Campo Grande. Tem cinquenta e tantos anos e a voz firme de quem já contou essa história muitas vezes sem se cansar dela.
Na praça de Coxim, à tardinha, quando o sol amolece e o rio Taquari escurece, alguém sempre passa e olha para cima, para onde as folhas dos cedros novos se mexem com o vento. A sombra ainda é pequena. Mas cresce.