Sábado, 16 de Maio de 2026
19°C 29°C
Campo Grande, MS
Publicidade

Critério de pesquisa anunciado por Flávio Bolsonaro favorece Capitão Contar na corrida ao Senado

Na Expogrande, senador confirmou Azambuja e disse que carta de Bolsonaro a favor de Pollon foi escrita sem conhecimento do acordo interno

10/04/2026 às 16h25 Atualizada em 13/04/2026 às 09h57
Por: Redação
Compartilhe:
Critério de pesquisa anunciado por Flávio Bolsonaro favorece Capitão Contar na corrida ao Senado

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) confirmou na quinta-feira, 9 de abril, durante a abertura da Expogrande 2026, que o ex-governador Reinaldo Azambuja ocupa posição assegurada na chapa do Partido Liberal para o Senado em Mato Grosso do Sul. A segunda vaga, disputada pelo ex-deputado estadual Capitão Contar e pelo deputado federal Marcos Pollon, será definida por pesquisas eleitorais encomendadas pelo partido, segundo o pré-candidato à Presidência da República.

A declaração foi dada na primeira visita de Flávio ao estado desde o lançamento de sua pré-candidatura presidencial . O contexto é de disputa aberta entre correligionários: o PL em Mato Grosso do Sul convive com movimentações paralelas e disputas por protagonismo . Ao estabelecer um critério de desempenho em pesquisas, Flávio tentou impor uma regra capaz de acomodar os diferentes polos internos sem romper a aliança que sustenta a reeleição do governador Eduardo Riedel (PP).

O episódio que mais pesou sobre a coletiva foi a carta manuscrita do ex-presidente Jair Bolsonaro, divulgada por Michelle Bolsonaro no final de fevereiro, quando o ex-chefe do Executivo ainda cumpria pena na Papudinha, em Brasília. No texto, Bolsonaro declarou que Pollon seria seu candidato ao Senado por Mato Grosso do Sul, destacando o “caráter, honra e dedicação” do deputado federal . A carta gerou atrito imediato com Azambuja e com os aliados de Contar, que já tinham um acerto prévio com a cúpula nacional do partido.

Flávio tratou de minimizar o documento. Segundo ele, o pai não tinha ciência do acordo anterior firmado entre os pré-candidatos. “A carta que ele escreveu, ele não sabia desse nosso acordo anterior, mas todos os pré-candidatos estamos cientes desse acordo”, declarou o senador a jornalistas presentes na Expogrande. A frase revela um dado relevante: havia um pacto interno, anterior à carta, que previa a definição por pesquisa. A manifestação de Bolsonaro a favor de Pollon, portanto, teria sido feita fora dessa combinação.

Flávio também afirmou que a “palavra final” sobre a segunda vaga caberia ao pai , uma ressalva que introduz ambiguidade no próprio critério técnico que acabara de anunciar. O senador Rogério Marinho (PL-RN), secretário-geral do partido, confirmou que Jair Bolsonaro “tem sempre a última palavra”.

Na prática, a pesquisa funciona como instrumento de mediação interna, mas não como veredicto soberano: o arbítrio final permanece com o ex-presidente, que hoje cumpre prisão domiciliar em Brasília com restrições severas de comunicação.

Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão pela prática de crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado e cumpre pena desde novembro de 2025. Em março, após quadro de broncopneumonia, o ministro Alexandre de Moraes concedeu prisão domiciliar humanitária por 90 dias. A decisão proíbe o uso de celular, telefone ou qualquer meio de comunicação externa, inclusive por intermédio de terceiros. Essa condição limita objetivamente a capacidade de Bolsonaro exercer a arbitragem final prometida pelo filho.

Os levantamentos mais recentes apontam competitividade entre três nomes para as duas vagas em disputa. A pesquisa Novo Ibrape/Campo Grande News, realizada entre 24 e 29 de março com mil entrevistas em 17 municípios, registrou Azambuja com 19,2%, Contar com 17,1% e Nelsinho Trad (PSD) com 15,2% na estimulada. Pollon apareceu com 4,7% . O levantamento IPR/Correio do Estado, de início de março, apontou empate técnico triplo entre Azambuja (18,2%), Contar (17,2%) e Nelsinho (14,6%), dentro da margem de erro de 3,5 pontos.

Se o critério de pesquisa for aplicado de forma estrita, Pollon é o mais prejudicado entre os quatro nomes do PL. Em nenhum dos levantamentos divulgados entre fevereiro e março ele ultrapassou a faixa de 7% na estimulada. O próprio diretor do Instituto IPR, Aruaque Fressato Barbosa, observou que o apoio público de Bolsonaro a Pollon não foi suficiente para provocar impacto expressivo na dinâmica da disputa . Contar, ao contrário, manteve posição estável no pelotão de frente em todos os institutos, ao lado de Azambuja e Nelsinho.

A trajetória de Contar até o PL foi marcada por negociações longas. Em novembro de 2025, o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, anunciou a filiação do ex-deputado ao partido, referindo-se a ele como “o mais votado da história de Mato Grosso do Sul”. Contar havia deixado o PRTB, pelo qual disputou o governo do estado em 2022, chegando ao segundo turno contra Eduardo Riedel. O retorno ao PL reuniu Contar e Azambuja no mesmo grupo, apesar do histórico de divergências entre os dois , incluindo um pedido de impeachment feito pelo então deputado contra o ex-governador.

Pollon, por sua vez, manteve posição firme após a fala de Flávio na Expogrande. Em declaração ao Jornal Midiamax, disse que não recuará na disputa e que foi indicado diretamente por Jair Bolsonaro . O deputado federal também carrega o peso de uma polêmica envolvendo anotações de Flávio Bolsonaro, divulgadas pela Folha de S.Paulo em fevereiro, que mencionavam um suposto pedido de R$ 15 milhões para desistência da candidatura. Pollon negou e Flávio disse que a anotação registrava comentários de terceiros, não decisões consolidadas.

O cenário que se desenha coloca o PL diante de um dilema. Aplicar pesquisas favorece Contar e consolida uma dobradinha com Azambuja, dois nomes com desempenho comprovado nos levantamentos. Ceder à pressão da carta de Bolsonaro favorece Pollon, mas cria risco eleitoral mensurável: os números mostram que ele disputaria a vaga em condição de desvantagem frente a concorrentes de fora do partido, como Nelsinho Trad e Vander Loubet (PT). A decisão terá reflexo direto sobre a aliança estadual com Riedel e sobre a capacidade do PL de conquistar as duas cadeiras em outubro.

Flávio Bolsonaro também reforçou na Expogrande o apoio do partido à reeleição do governador Eduardo Riedel  e tratou com elogios a senadora Tereza Cristina (PP), a quem chamou de “sonho de consumo” para uma eventual composição de chapa presidencial , sem antecipar definições sobre o posto de vice. A agenda no Parque de Exposições Laucídio Coelho serviu para Flávio se posicionar como interlocutor do agronegócio e costurar apoios num estado onde o setor produtivo exerce influência decisiva sobre o voto.

A convenção do PL em Mato Grosso do Sul, prevista para os próximos meses, será o momento de oficializar os nomes. Até lá, a segunda vaga permanece em aberto, com pesquisa e política disputando o papel de critério final.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.