Saúde GESTÃO MARÇAL FILHO
Prefeitura de Dourados corta plantões, perde médicos e coloca UPA sob risco em plena epidemia
Redução de até 39% provoca saída em massa e troca total das equipes a partir de 5 de maio, enquanto cidade enfrenta alta de chikungunya e superlotação
15/04/2026 16h36 Atualizada há 2 meses
Por: João Paulo Ferreira
UPA de Dourados é uma das unidades afetadas pela saída de cerca de 60 médicos após corte de até 39% nos valores dos plantões, em meio à epidemia de chikungunya no município

Cerca de 60 médicos devem deixar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e o Hospital da Vida, em Dourados, a partir do dia 5 de maio, após a implementação de um novo modelo de contratação que reduz em até 39% o valor pago pelos plantões. A troca das equipes será feita de uma só vez: os profissionais atuais encerram o turno na noite anterior e uma equipe inteiramente nova assume às 7h da manhã seguinte.

A informação foi confirmada por profissionais que atuam nas duas unidades. As escalas seguem mantidas até a data prevista, mas a recusa em permanecer sob as novas condições foi generalizada.

Pelo contrato em vigor, médicos recebem entre R$ 1.050 e R$ 1.250 líquidos por plantão de 12 horas. No novo modelo, o pagamento cai para R$ 750 a R$ 850 brutos. Com a incidência de impostos, o valor líquido pode chegar a R$ 660. A hora trabalhada, que hoje gira em torno de R$ 95, passará a aproximadamente R$ 54.

Equipes substitutas sem experiência local

Para repor os profissionais que saem, a contratação recorre a médicos de outras regiões, como Rondônia, Goiás e cidades do interior da fronteira. Segundo relatos de quem atua nas unidades, parte desses profissionais não tem experiência consolidada em urgência e emergência. Há casos de recém-formados e recém-revalidados que nunca trabalharam em plantões.

A preocupação central é que equipes experientes, familiarizadas com o fluxo interno, os protocolos e a dinâmica das unidades, sejam substituídas por profissionais que desconhecem o sistema de regulação de vagas, os setores de encaminhamento e os pacientes já internados.

O momento mais crítico apontado por profissionais é justamente a virada das equipes. Em um intervalo de poucas horas, médicos que já conhecem o funcionamento das unidades deixam os plantões e dão lugar a equipes completamente novas, sem familiaridade com a estrutura. Em ambientes de alta complexidade, como sala vermelha e atendimento pediátrico, decisões precisam ser tomadas em minutos, e a ausência de experiência prática pode resultar em atrasos no atendimento, falhas na condução clínica e agravamento de quadros.

Unidades já operam no limite

Faixa instalada em Dourados cobra responsabilidade da Funsaud em meio à saída de médicos, corte nos plantões e sobrecarga na UPA e no Hospital da Vida

Registros compartilhados por profissionais ilustram a pressão atual sobre o sistema. Em um dos levantamentos recentes da UPA, mais de 100 pacientes já haviam passado pela triagem, cerca de 90 ainda aguardavam atendimento e apenas dois médicos estavam em atividade.

O sistema de classificação de risco organiza os pacientes por gravidade, mas, na prática, a fila cresce enquanto os atendimentos não acompanham a demanda. Profissionais relatam que a unidade já opera no limite, com sobrecarga constante das equipes.

Além da pressão assistencial, há relatos de aumento na tensão dentro das unidades. Médicos afirmam que vêm sendo cobrados diretamente por pacientes e familiares diante da demora, mesmo com equipes reduzidas e alto volume de atendimentos.

A cidade enfrenta epidemia de chikungunya, aumento expressivo de síndromes respiratórias e a pressão sazonal dos meses que antecedem o inverno. O município decretou situação de emergência em saúde pública e recebeu apoio da Força Nacional do SUS.

Denúncia no CRM e no Ministério Público

Médicos das duas unidades protocolaram denúncia formal no Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul (CRM-MS) e no Ministério Público Estadual. No documento, apontam que a redução dos valores e a consequente evasão de profissionais podem comprometer a continuidade do atendimento e colocar em risco a segurança dos pacientes.

A denúncia cita possível violação de princípios constitucionais, normas do SUS e dispositivos do Código de Ética Médica, que vedam o exercício profissional em condições que comprometam a assistência.

Segundo os profissionais, a preocupação não se limita à remuneração, mas ao impacto direto na qualidade do serviço prestado, especialmente em um cenário de aumento da demanda e troca completa das equipes.

Impacto regional

Dourados tem cerca de 245 mil habitantes, mas a UPA e o Hospital da Vida atendem uma macrorregião com aproximadamente 380 mil pessoas, distribuídas em dezenas de municípios.

A UPA funciona como principal porta de entrada da urgência, e o Hospital da Vida é referência em média e alta complexidade, com atendimentos em áreas críticas como trauma, neurologia e clínica médica.

A substituição integral das equipes nessas duas unidades, em um cenário de alta demanda, amplia o risco assistencial não apenas para o município, mas para toda a rede regional que depende desses serviços.