
O prefeito de Dourados, Marçal Filho (PSDB), decretou nesta segunda-feira (20) situação de calamidade em saúde pública diante do avanço da chikungunya. O Decreto nº 638/2026, com validade de 90 dias, admite, na prática, o colapso da rede assistencial do município.
O texto se apoia em números que expõem o tamanho da crise. São 6.186 casos prováveis da doença, taxa de positividade de 64,9% e ocupação dos leitos de internação em cerca de 110%, acima da capacidade instalada. Dourados concentra oito dos doze óbitos por chikungunya registrados em Mato Grosso do Sul em 2026, entre eles dois bebês e, desde 16 de abril, a primeira morte em área urbana. Outros dois casos seguem em investigação, incluindo o de um menino indígena de 12 anos e o de um homem de 84 anos.
Somente nos últimos dez dias, o município saltou da sexta para a oitava morte confirmada. A vítima mais recente é um homem de 63 anos, morador do bairro Parque das Nações 2, que apresentou os primeiros sintomas em 7 de abril e morreu em 13 de abril. Os demais óbitos confirmados incluem idosos de 55, 60, 69, 73 e 77 anos, todos da Reserva Indígena de Dourados.
A calamidade é o terceiro decreto editado em um mês. O primeiro, de 20 de março, declarou emergência em saúde pública e foi homologado pela União em 30 de março. Em 31 de março, Marçal criou o Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE), sob o comando do secretário municipal de Saúde, Márcio Grey Figueiredo. Nem isso impediu a piora do quadro.
O cenário se agrava por decisões da própria gestão. Em 31 de março, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS) suspendeu a execução de emendas parlamentares individuais em Dourados. Em decisão do conselheiro Osmar Domingues Jeronymo, o tribunal constatou que o município aplicou apenas 40% desses recursos na saúde, descumprindo o piso constitucional de 50%. A suspensão vale até a regularização do percentual.
A rede de urgência também será esvaziada em plena epidemia. A partir de 5 de maio, a empresa Equipe Group, sediada em Londrina (PR), assume os plantões das áreas verde e vermelha do Hospital da Vida e da porta de entrada da Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A contratação foi feita pela Fundação de Serviços de Saúde de Dourados (Funsaud) após pregão realizado em 3 de novembro de 2025.
Pelo menos 60 médicos devem deixar as unidades após o novo contrato reduzir os valores pagos por plantão, que caem de R$ 1.050 a R$ 1.250 líquidos para uma faixa de R$ 750 a R$ 850 brutos, podendo chegar a R$ 660 líquidos. Sobre a debandada, Figueiredo disse ao Campo Grande News que 95% dos profissionais recusaram a proposta de continuidade e que a troca representa economia de 25%.
O impasse já chegou à Câmara Municipal. O vereador Inspetor Cabral (PSD) subiu à tribuna para cobrar explicações sobre o processo licitatório. Em 13 de abril, faixas apócrifas foram afixadas em diferentes pontos da cidade contra a mudança e retiradas no mesmo dia por funcionários da prefeitura.
Enquanto a saúde desmorona, a prefeitura encontrou espaço no orçamento para a festa. Em 16 de abril, publicou o Edital de Chamamento Público nº 002/2026, que reserva até R$ 448 mil para a organização da 47ª Festa Junina de Dourados, por meio da Secretaria Municipal de Cultura. As propostas serão recebidas até 15 de maio. O evento está marcado para 5, 6 e 7 de junho.