
Em março deste ano, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul concedeu a Ney Matogrosso o título de doutor honoris causa. A cerimônia ocorreu no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande, durante a abertura do Festival da Juventude 2026. O artista vestia preto, sem adereços. Recebeu o diploma das mãos da reitora Camila Ítavo e, em seguida, conduziu uma palestra-show ao lado de dois jovens participantes do festival. Tudo transcorreu dentro do protocolo. Tudo, exceto o subtexto.
Ney Matogrosso nasceu em Bela Vista, na fronteira com o Paraguai, em 1º de agosto de 1941. Aos 84 anos, é uma das vozes mais reconhecíveis da música brasileira, eleito pela Rolling Stone como a terceira maior do país. Tem mais de cinquenta anos de carreira solo, dezenas de discos, uma cinebiografia recente, uma biografia escrita pelo jornalista Julio Maria, exposições no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. O título da UFMS chega depois de tudo isso. Vale perguntar por quê.
A resposta curta é incômoda. Mato Grosso do Sul levou tempo para reivindicar Ney Matogrosso porque Ney Matogrosso é tudo o que a versão oficial do estado evita representar. O sul-mato-grossense que circula nas peças institucionais, nas campanhas turísticas, nos cartões-postais da Expogrande, é o homem do campo, o peão, o sertanejo, a comitiva. Ney é o oposto disso. Ou melhor, é a face que o discurso identitário do estado escolheu não enxergar.
Em entrevista à revista Piauí, em 2008, Ney contou um episódio revelador. “Outro dia procurei Bela Vista no Google Earth e não encontrei. A cidade onde eu nasci não está no mapa. Achei o rio Apa, que divide a cidade, mas Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, não tem.” A frase soa anedótica, mas funciona como metáfora exata da relação do artista com a terra natal. Bela Vista existia para Ney como ausência geográfica antes mesmo de existir como ausência simbólica.
Fundada em 1900, a cidade foi palco de combates durante a Guerra do Paraguai e tem hoje pouco mais de 21 mil habitantes. Ney passou ali parte da infância, antes de a família se mudar para Campo Grande, também por força do trabalho do pai, militar do Exército. Aos 17 anos, deixou a casa dos pais. Aos 18, ingressou na Aeronáutica em Brasília. A trajetória dali em diante foi feita longe do estado: Rio de Janeiro em 1966, São Paulo em 1971, o nome artístico adotado naquele mesmo ano, os Secos & Molhados em 1973.
A separação física foi precoce, mas a separação simbólica foi mais profunda. Em sua autobiografia, Vira-Lata de Raça, Ney descreve a infância no Mato Grosso ainda uno (a divisão do estado só ocorreria em 1977) com afeto pela paisagem e desconforto com a cultura. Lembra de andar a cavalo em meio à floresta, tomar banho em açudes com jacarés, subir em árvores. Lembra também de uma caçada, aos 12 anos, em que viu cinco homens atirarem em uma família de macacos só para treinar pontaria. “Ali eu conheci a loucura humana”, escreveu. O episódio voltou a ser narrado por ele em audiência pública na Câmara dos Deputados, em 2025, quando defendia o aumento de penas para crimes contra animais silvestres. A cena fundadora da consciência ambiental do artista, portanto, é uma cena de violência testemunhada em solo sul-mato-grossense.
O pai de Ney, Antônio Mattogrosso Pereira, era militar de carreira. A casa em que o artista cresceu foi descrita por ele próprio, e por seus biógrafos, como rígida, austera, conservadora. A cinebiografia Homem com H, dirigida por Esmir Filho e lançada em 2025, retrata os embates frequentes com o pai, que insistia que o menino “virasse homem”. Esses embates não eram circunstância familiar isolada. Eram o tom geral de um ambiente social que, naquela fronteira de meados do século XX, misturava cultura militar, valores rurais e códigos de masculinidade pouco negociáveis.
Ney saiu de casa cedo justamente para escapar disso. E, ao construir uma persona artística que tornaria a transgressão de gênero uma das marcas mais reconhecíveis da MPB, transformou em obra pública aquilo que precisou rejeitar em casa. Não é estranho, portanto, que o estado natal tenha demorado a saber o que fazer com ele. A própria cinebiografia, ao reconstituir a infância do artista, faz referência a Mato Grosso do Sul de forma quase tímida, com um único letreiro discreto (“Vila Militar, 1949”) e uma menção rápida a Campo Grande na fala do pai. O território onde a história começa é, no filme como na vida pública, um lugar mais aludido do que habitado.
Mato Grosso do Sul, como unidade autônoma, é jovem. Foi criado em 1977, quando Ney já era um nome consolidado. A construção da identidade estadual ocorreu sob influência direta da expansão agropecuária, do crescimento da pecuária de corte e, mais tarde, da consolidação do agronegócio como motor econômico. O imaginário oficial se moldou a partir desse vetor: a fazenda, a estrada, o boi, o peão, a viola.
Esse imaginário não é falso. Reflete uma parte real da economia e da cultura do estado. Mas opera por exclusão. O sul-mato-grossense que aparece nas peças de divulgação raramente é indígena, embora o estado tenha uma das maiores populações indígenas do Brasil. Raramente é fronteiriço, embora a presença paraguaia molde a culinária, a língua e a música cotidianas. Raramente é urbano, embora Campo Grande passe de 900 mil habitantes. E raramente é desviante, em qualquer sentido da palavra.
Ney Matogrosso, com seu corpo pintado, sua voz aguda, sua biografia gay assumida desde sempre, sua militância ambiental, seu vegetarianismo, sua recusa em performar a masculinidade rural, é o avesso desse retrato oficial. Reivindicá-lo como filho ilustre exigiria revisar o próprio retrato. Por décadas, o estado preferiu não fazer essa revisão.
Há sinais de que algo mudou. Em discurso na cerimônia de outorga, o professor Gustavo Penha, diretor da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação da UFMS, descreveu o momento como “histórico da cultura de Mato Grosso do Sul” e falou em “uma maturidade cada vez mais significativa no que diz respeito à valorização da arte dos artistas”. Penha definiu a homenagem como gesto pelo qual o estado “agradece, abraça simbolicamente e devolve, em forma de homenagem, parte da admiração, do carinho e do orgulho que sua trajetória desperta”.
A formulação é bonita, mas vale lê-la com atenção. O verbo “devolver” supõe algo previamente subtraído. A “maturidade” supõe imaturidade anterior. O reconhecimento institucional, quando vem aos 84 anos do homenageado, não é apenas celebração. É também acerto de contas tardio.
Há precedentes mais discretos. A Associação dos Registradores de Pessoas Naturais de Mato Grosso do Sul (Arpen/MS) tem promovido o resgate da história de Ney como patrimônio civil do estado, a partir do registro de nascimento lavrado em Bela Vista. Em Bela Vista, a cidade reconhece o vínculo, mas a estrutura física e simbólica de homenagem é modesta.
Universidades costumam se mover antes do consenso social. O título concedido em março não significa que Mato Grosso do Sul, como sociedade, tenha resolvido sua relação com Ney Matogrosso. Significa que uma instituição pública específica, em um momento específico, decidiu nomear esse vínculo. A escolha é deliberada. O termo usado por Penha em seu discurso, ao chamar a UFMS de “corajosa”, não é casual em um estado onde a gestão estadual é alinhada ao agronegócio e onde manifestações culturais associadas à diversidade ainda enfrentam resistência pública e institucional.
A homenagem chega em um contexto de avivamento da imagem do artista. A cinebiografia foi lançada em maio de 2025 e está disponível na Netflix. A biografia de Julio Maria, fruto de cinco anos de pesquisa e quase duzentas entrevistas, saiu em julho do mesmo ano. A exposição no MIS-SP, com mais de 200 figurinos, adereços, videoclipes e fotografias, marcou os 50 anos de carreira solo. Ney, aos 84, controla mais do que nunca a própria narrativa biográfica. Receber um título acadêmico do estado natal, agora, integra esse movimento.
O que falta para o estado é o passo seguinte. Reconhecer Ney Matogrosso como parte da identidade sul-mato-grossense não significa decorá-lo na próxima Expogrande. Significa admitir que a cultura do estado é mais larga do que a versão promovida pelas peças oficiais. Significa aceitar que um menino nascido em Bela Vista, criado num quartel, e que precisou ir embora aos 17 anos para ser quem era, também conta o Mato Grosso do Sul. Talvez o conte com mais precisão do que muitos discursos institucionais conseguem.
A frase de Ney à Piauí, em 2008, sobre não encontrar Bela Vista no Google Earth, ganha hoje outro sentido. A cidade está no mapa. O artista está, finalmente, no mapa cultural do estado em que nasceu. Falta saber se o mapa cabe.