Saúde SURTO SEM FIM
Após caos da chikungunya em Dourados, Governo lança obra de R$ 8,9 milhões para aldeias indígenas
Licitação da Agesul prevê superpoços nas aldeias Bororó e Jaguapiru, onde quase 20 mil indígenas enfrentam falta de água há anos em meio à epidemia de chikungunya
18/05/2026 15h55 Atualizada há 1 mês
Por: João Paulo Ferreira
Obras de ampliação do abastecimento nas aldeias Bororó e Jaguapiru integram pacote anunciado pelo Governo de MS após agravamento da crise hídrica e sanitária em Dourados - Foto: Saul Schramm

O Governo de Mato Grosso do Sul lançou duas licitações que somam R$ 8.993.645,86 para tentar enfrentar a crise histórica de abastecimento de água nas aldeias Bororó e Jaguapiru, em Dourados, onde vivem quase 20 mil indígenas dos povos Guarani Kaiowá, Guarani Nhandeva e Terena. A medida ocorre após o agravamento da crise sanitária provocada pela epidemia de chikungunya no município, que atingiu fortemente a reserva indígena.

Os avisos de licitação foram publicados pela Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul) nesta segunda-feira (18). Cada concorrência tem valor estimado em R$ 4.496.822,93 e prevê a perfuração de um poço profundo em cada aldeia. A abertura das propostas está marcada para o dia 3 de junho, em formato eletrônico.

As obras fazem parte da primeira etapa do projeto de ampliação do sistema de abastecimento de água nas aldeias. Além dos poços, o plano prevê implantação de reservatórios, rede de distribuição, estação elevatória e sistema de cloração. O pacote completo de investimentos anunciado anteriormente pelo Governo do Estado e pela Sanesul chega a R$ 48 milhões.

A crise de abastecimento nas aldeias se arrasta há anos e se agravou nos últimos meses durante a epidemia de chikungunya em Dourados. A falta de fornecimento regular obriga muitas famílias a armazenarem água em recipientes improvisados, cenário considerado favorável à proliferação do mosquito Aedes aegypti.

Reportagens locais apontam que a reserva indígena concentrou parte significativa das mortes registradas pela doença em Dourados. Dados citados pelo Correio do Estado indicam que nove das mortes por chikungunya registradas no município ocorreram dentro da reserva indígena.

Em abril deste ano, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) autorizaram oficialmente a execução das obras emergenciais de ampliação do abastecimento de água nas aldeias. A execução ficou sob responsabilidade da Agesul.

O Governo do Estado afirma que o projeto deve garantir segurança hídrica para as aldeias até 2033. A previsão oficial é atender mais de 14 mil moradores na Bororó e mais de 15 mil na Jaguapiru.

Antes do projeto estrutural, ações emergenciais já haviam sido realizadas na reserva. Em 2025, o MPI informou a perfuração de 20 poços em parceria com a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), com investimento de R$ 575 mil.

A publicação das licitações ocorre poucos dias após a prisão e exoneração do então diretor-presidente da Agesul, Rudi Fiorese, alvo da Operação Buraco Sem Fim, que investiga suspeitas de fraudes em contratos de tapa-buraco em Campo Grande. Até o momento, não há indícios de irregularidades relacionados às licitações dos poços nas aldeias indígenas.