
Corumbá lidera hoje no país a rota de entrada de migrantes estrangeiros que depois foram resgatados em condições análogas à escravidão no Brasil. O dado coloca Mato Grosso do Sul no centro de uma das principais portas de entrada dessa rede de exploração e reforça o alerta sobre a vulnerabilidade da fronteira oeste do Estado.
O levantamento, com base em dados do SmartLab Trabalho Escravo — plataforma do Ministério Público do Trabalho e da Organização Internacional do Trabalho — mostrou que Corumbá concentra 29,1% dos registros nacionais de entrada de trabalhadores estrangeiros encontrados posteriormente em situação de trabalho escravo. Ponta Porã aparece em quinto lugar no ranking, com 8,25%.
Os números reforçam um cenário que já vinha sendo monitorado por órgãos federais. Mato Grosso do Sul aparece como o segundo estado brasileiro com maior número de migrantes internacionais resgatados de trabalho escravo entre 2010 e 2024, com 143 casos registrados. Apenas São Paulo aparece à frente.
Os registros também mostram quem são esses trabalhadores e onde estão sendo encontrados. Segundo o levantamento nacional, a maior parte dos migrantes internacionais resgatados em Mato Grosso do Sul era formada por paraguaios, todos homens. As atividades com maior incidência foram pecuária, responsável por 39% dos casos, e lavouras, com 32%.
A presença de Corumbá no topo do ranking nacional acompanha outro alerta divulgado neste ano. Em abril de 2026, relatório elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em parceria com a Organização Internacional para as Migrações apontou Campo Grande e Corumbá como dois dos principais eixos brasileiros de entrada, saída e circulação em rotas de contrabando de migrantes.
O documento federal descreve a atuação de redes estruturadas com recrutadores, intermediários e transporte irregular de pessoas, além do uso crescente de redes sociais e aplicativos de mensagens para atrair migrantes com falsas promessas de trabalho ou deslocamento facilitado.
A posição estratégica de Corumbá, na fronteira com a Bolívia, e de Ponta Porã, na divisa com o Paraguai, ajuda a explicar a concentração de registros em Mato Grosso do Sul. As duas cidades funcionam como corredores terrestres permanentes de circulação internacional e mantêm fluxo intenso diário de pessoas e cargas.
Além da entrada desses trabalhadores no território brasileiro, o Estado também registra histórico relevante de resgates. Entre 1995 e 2024, Mato Grosso do Sul contabilizou 3.243 pessoas resgatadas em situações análogas à escravidão em diferentes operações de fiscalização.