Política CRIME ELEITORAL
PF suspeita de rede montada para comprar votos em Campo Grande
Investigação mira Pix fracionados, dinheiro em espécie e uso de contas de terceiros perto dos dois turnos
21/06/2026 13h28
Por: João Paulo Ferreira
Operação Suffragium apura suspeitas de compra de votos na eleição municipal de Campo Grande de 2024

Dois dias após deflagrar a Operação Suffragium, a Polícia Federal trabalha com a hipótese de uma estrutura organizada para viabilizar a compra de votos na eleição para a Prefeitura de Campo Grande em 2024. A investigação, que tramita sob sigilo, aponta movimentações financeiras consideradas atípicas e descreve uma rede com divisão de tarefas entre diferentes níveis de atuação.

Na sexta-feira (19), a PF cumpriu sete mandados de busca e apreensão em Campo Grande e Taquarussu, autorizados pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS). O inquérito apura, em tese, os crimes de corrupção eleitoral e falsidade ideológica eleitoral, conhecida como caixa dois.

Segundo a Polícia Federal, foram identificados saques em espécie, transferências fracionadas por Pix e uso de contas de terceiros para movimentar recursos em datas próximas ao primeiro e ao segundo turno das eleições. A suspeita é de que a fragmentação dos pagamentos tenha sido utilizada para dificultar o rastreamento do dinheiro.

Informações já reunidas na ação eleitoral que discutiu a cassação da prefeita Adriane Lopes (PP) e da vice-prefeita Camilla Nascimento (Avante) apontam para uma estrutura dividida em níveis, envolvendo pessoas responsáveis pela coordenação, intermediários e beneficiários finais dos repasses. A PF afirma que a operação foi deflagrada para aprofundar a investigação.

Um dos alvos identificados publicamente é a ex-assessora da Prefeitura de Campo Grande Simone Bastos Vieira, que teve o celular apreendido em Taquarussu. Nos autos da ação eleitoral, ela aparece associada a um Pix de R$ 1,2 mil destinado a Sebastião Martins Vieira, conhecido como "Tião da Horta". Segundo a acusação apresentada no processo, o repasse teria sido feito após contato com Marcos Paulo Amorim Pegoraro, então coordenador de Articulação Comunitária da prefeitura.

Em maio deste ano, o TRE-MS rejeitou por 5 votos a 2 o pedido de cassação de Adriane Lopes e Camilla Nascimento. Durante o julgamento, porém, o relator Alexandre Antunes da Silva reconheceu a existência de compra de votos, mas entendeu que não havia provas suficientes para demonstrar a participação ou anuência das candidatas.

O Ministério Público Eleitoral teve posição mais dura. Em parecer encaminhado ao processo, o procurador regional eleitoral Luiz Gustavo Mantovani defendeu a cassação da chapa e, após a derrota no TRE-MS, recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No recurso, sustentou que pessoas ligadas ao núcleo político da campanha dificilmente teriam atuado sem conhecimento ou consentimento das candidatas.

Em nota divulgada após a operação, a prefeita Adriane Lopes afirmou ter recebido a notícia "com surpresa e tranquilidade". Segundo a manifestação, nenhum mandado foi cumprido no Paço Municipal ou em sua residência. A prefeita também afirmou que as acusações já haviam sido analisadas pela Justiça Eleitoral, que manteve a validade da eleição.

Até este domingo (21), a Polícia Federal não divulgou os nomes dos outros seis alvos das buscas, tampouco informou valores totais supostamente movimentados ou quantos eleitores teriam sido beneficiados. Não houve prisões, e o inquérito continua sob sigilo.