
O artista visual Wendel Fontes apresenta, na Galeria Wega Nery, no Centro Cultural José Octávio Guizzo, em Campo Grande, a exposição "O que permanece em nós?”. A mostra reúne 21 pinturas produzidas entre 2023 e 2026 e parte de duas perguntas centrais: “O que permanece da infância na vida adulta?” e “O que essa infância pode nos oferecer como estratégia para elaborar quem somos hoje?”.
Formado em Artes Visuais e pós-graduado em História da Arte, Wendel atua principalmente com pintura e fotografia, a partir de um processo de combinação de imagens, colagens e sobreposições.Nas telas, crianças aparecem imersas em momentos de introspecção e entrega à atividade lúdica. Embora as imagens possam sugerir, à primeira vista, um gesto de rememorar a infância, o artista constrói atmosferas em que o familiar se desloca e se abre a diferentes interpretações. A escrita dos títulos das obras funciona como elemento de conexão entre as imagens e ajuda a criar esses deslocamentos de sentido.
No centro do salão térreo, uma instalação em forma de árvore chama a atenção. A carcaça de uma árvore coletada após um temporal, com latas penduradas, remete à brincadeira infantil do “telefone sem fio”. Dentro de cada lata, alto-falantes reproduzem relatos de vida de pessoas sem nome e sem rosto. A pauta inicial mencionava uma árvore real derrubada por um temporal; esse ponto ainda precisa ser confirmado com o artista, assim como a origem e a seleção dos relatos.
Wendel desafia o olhar do espectador por meio da perspectiva. Os quadros, que à primeira vista parecem realistas, enganam quando o observador se detém nos detalhes. Além das ilusões de perspectiva, o artista brinca com as cores: a paleta quente é tensionada por bolas rosa neon e águas pintadas em azul turquesa. Esses elementos conferem às obras um teor onírico, que mistura sonho e memórias de infância.
A mediação cultural da exposição é conduzida por Letícia Maidana, arte-educadora formada em Arquitetura e Urbanismo pela UFPR e estudante de Artes Visuais na UFMS. Nas visitas guiadas, ela entrega ao espectador o papel de guia, perguntando “qual obra veremos agora?”. A provocação começa pelos títulos: Letícia os lê em voz alta e pergunta o que o nome remete antes de o grupo se voltar atentamente para a pintura. Ela também conduz, aos sábados de outubro, uma oficina de construção de imagem poética que cruza memórias de infância, pintura, colagem e escrita.
A visita guiada segue para uma oficina conduzida por Maidana. Nessa etapa, o observador se torna artista e é incentivado a retomar suas memórias de infância para produzir uma colagem com materiais disponibilizados pelo Centro Cultural, como revistas, cartazes, canetinhas e tinta guache. A cola é o último material oferecido; durante duas horas, os participantes são convidados a cortar, encaixar, testar e sentir as próprias obras. Wendel admite que as colagens são, muitas vezes, o ponto de partida de seus quadros, e a oficina convida o público a emergir um pouco em seu processo criativo.
Natural do Rio de Janeiro, Wendel Fontes mora em Campo Grande desde 2018. Esta é sua terceira exposição individual na cidade em 2026. A visita a O que permanece em nós? segue até 30 de outubro, na Galeria Wega Nery — Centro Cultural José Octávio Guizzo, na Rua 26 de Agosto, 453, Centro, com entrada gratuita. Durante a semana, o horário é de terça a sexta, das 8h às 11h30 e das 13h30 às 20h.