22/10/2021



“Tatuadora de MS vence preconceito e se destaca no mercado: “Me sinto realizada e incentivo outras mulheres”

Com 12 premiações e 18,2 mil seguidores, Patrícia Miranda é reconhecida no mundo das artes e faz sucesso nas redes sociais

Por Viviane Freitas - 24/09/2021 - 13:48 | 0 comentários
#OSMEntrevista


Uma profissão até bem pouco tempo predominantemente masculina, está atraindo cada vez mais mulheres que se destacam no mercado e conquistam a clientela. São as tatuadoras, que precisaram vencer o preconceito para se firmar na área antes dominada pelos homens. Elas ocupam cada vez mais espaço no mercado e se destacam, como é o caso da sul-mato-grossense, Patrícia Miranda, 30 anos, tatuadora profissional com trabalho reconhecido pela delicadeza e perfeição dos traços.

Para alguns, Patrícia Miranda, para outros, Ladys Paty, independentemente de como você conheça, a resposta sobre ela é a mesma: dona dos traçados mais coloridos da cidade. Premiada em diversas categorias, ela vem se destacando no mundo das artes e fazendo sucesso nas redes sociais, hoje, com 18,2 mil seguidores em seu perfil profissional.

Nos últimos anos ela se tornou uma referência no mercado e já foi premiada 12 vezes  em diversas categorias mas, especialmente no ‘full Collor’, ganhou prêmio de melhor tatuagem “New School” em um evento internacional realizado no Paraguai.

Patrícia, é natural de Campo Grande, conversou com o Sul Mato Grossense, a quem contou os caminhos que precisou percorrer para se firmar na área, do amor pelo que faz e do preconceito que ainda enfrenta.

Começamos do início, Paty conta que amava desenhos ainda na infância. “Minha avó tinha escola, minha mãe é professora e no meu tempo vago eu ficava desenhando, era o meu passatempo. E eu sempre gostei de estudar muito a cor. Minha alegria era fazer os desenhos grandes, eu desenhava e ia emendando as folhas para ficarem cada vez maiores, isso me desafiava”, conta ao OSM.

À medida que foi crescendo, explorou novas formas de artes, até se encontrar no grafite, painéis artísticos nas ruas. “Como sempre gostei de desenhos grandes, isso me ajudou muito no grafite. E foi desenhando sempre que adquirindo a prática”, conta.

Nesse meio que ganhou seu nome artístico, hoje conhecido em todo o estado: ‘Ladys Paty’. “Sempre foi um meio muito masculino que fui me inserindo aos poucos. Na época, meus colegas sempre me chamavam de lady, por ser a única moça no meio dos meninos e acabou pegando”, relembra. E complementa, “Fico muito feliz que hoje em dia há abertura do público feminino da arte”, finaliza.

Na adolescência cursou Artes Visuais na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e se especializou em pintura. Depois de formada, se dedicou a ensinar em escolas públicas e particulares de Campo Grande e passou cinco anos se dedicando ao ensino de artes plásticas. “Foi uma das melhores épocas da minha vida, eu amo ensinar”, disse.

Mas desde então, passou a pensar na tatuagem. “O meu interesse começou há seis anos, mas nunca me senti apta e confiante para explorar a pele, entre a faculdade e a tatuagem, fui estudando aos poucos, fui fazendo estudo de anatomia, assepsia, estética. Então com certeza, o estudo veio antes de começar a tatuar”, comentou. 

E foi estudando muito e se aperfeiçoando, Paty migrou do papel para a pele. “Preferi estudar outras superfícies antes de pegar a pele e foi assim que acabei me aperfeiçoando. Pra mim a tatuagem sempre foi sinônimo de muita responsabilidade. Só tatuei quando me senti segura do que estava fazendo”.

Nem tudo são flores, e a realidade é bem diferente dos contos de fadas. Depois que finalizou a faculdade, Paty trabalhou em lojas do Shoppings da cidade até iniciar na sua área. “Foi lá que consegui juntar um dinheiro para começar a fazer os primeiros testes, não me arrependo”, conta com felicidade.

E foi em 2011 que ela resolveu explorar o mundo da tatuagem e começou a treinar os traços, mas até chegar aonde está, houve muitas portas na cara. “Uma mulher tatuadora era um tabu. Ainda é um meio muito machista”, lamenta. Ela sente o peso do machismo no dia a dia e, às vezes, durante as competições. “Eu sinto a diferença nos olhares das pessoas que duvidam que eu seja capaz de fazer o meu trabalho. Às vezes é capaz de um homem com um trabalho bem inferior levar um prêmio só para que uma mulher não ganhe. Parece que não, mas isso acontece”, conta.

No começo ela conta que recebeu ajuda de poucos amigos, os demais tatuadores nunca deram muito espaço. “Comecei praticamente sozinha e tive que aprender sozinha mesmo, estudar o máximo para me aperfeiçoar, mas quase todas as tatuadoras enfrentam isso, então me sinto pronta. ”, explica.

E, foi tatuando na galeria que foi ganhando experiência em traço e atendimento. “Foi assim que decidi abrir meu próprio estúdio, pequeno no início, mas foi uma experiência incrível, e quanto mais eu estudava, mais tinha reconhecimento”, conta.

As técnicas de trabalho chamam atenção em desenhos coloridos que parecem pincelados e tonalidades incomuns. Inclusive, a tonalidade é o que recebe um grande esforço da tatuadora que estuda e cria diariamente novas pigmentações. “Uma cor que fica bem na minha pele não ficará com o mesmo tom na pele de outra pessoa. Cada pele é única e tinta aparece de um jeito, por isso, é preciso ter técnica para entender de cores e também de pele, garantindo assim a cor perfeita e desejada pelo cliente”, explica Paty. 

Com muito investimento em estudos o reflexo foi o reconhecimento em relação a técnica, atendimento. Com a cartela de clientes aumentando, foi necessário mudar para um espaço maior, e hoje atende no atual estúdio @067inktattoo, com 11 pessoas na equipe.

“Transformamos uma casa inteira em uma casa de tatuagem, nosso maior intuito é ver as pessoas se sentirem à vontade. Ao longo do tempo percebi que muitas pessoas iam tatuar, mas não se sentiam à vontade no espaço. Então, o nosso estúdio foi todo pensado para proporcionar conforto e fazer com que se sintam em casa, aconchegante”, comenta.

Durante a pandemia, o local ficou fechado por 45 dias. Mas como Paty diz, não foram em vão. “Não ficamos parados, ocupamos esse tempo com muito estudo, evoluindo sempre”.

Em relação às tatuagens coloridas, faz 3 ou 4 anos que investe na modalidade full Collor. “Sempre tatuei vários estilos antes do full Collor, mas cada tatuador acabou se estabilizando em um estilo, e foi onde eu me identifiquei e coloquei a minha marca”, comenta.

Paty é minuciosa no trabalho e leva o tempo que for necessário para que o desenho saia perfeito. Referente à cor, precisa estar “viva” na pele. “Com aquele aspecto forte e que não deixa dúvidas que estará sempre assim desde que haja cuidado”, explica.  Sobre sua conquista até aqui: “Me sinto realizada e incentivo outras mulheres”, finaliza.

Confira o bate bola que com a tatuadora:

OSM- Qual animal preferido e por quê?

Paty- Répteis. Quando criança, eu passei por uma experiência ruim, e isso ficou na minha cabeça. Sonhava muito com serpentes de uma maneira ruim. Quando adulta fui em um evento que tinha uma serpente enorme, peguei no braço a serpente de 2,5m, e fiquei encantada pela sensibilidade que ele tem, e desde então sempre quis.  Hoje temos 2 serpentes legalizadas.

OSM – Qual sua maior inspiração?

Paty – “Não temos apenas uma inspiração, vivemos no meio da inspiração. Passamos por situações que nos fazem crescer, tanto espiritualmente, como criativamente. E é então que você vai adquirindo situações que se tornam inspirações para melhor a cada dia”.

OSM- Alguém importante?

Paty – Meu marido. Estamos juntos há 13 anos e o companheirismo dele é muito importante. Ele sempre me incentivou em relação a minha trajetória artística. Sempre foi uma pessoa que esteve ao meu lado, com certeza as coisas seriam diferentes sem ele.

OSM- Projeto que se orgulha?

Paty – Projeto Marta Rosa Tattoo, com certeza. Esse projeto é muito importante para mim, e tenho muito orgulho de ser reconhecida pelos bons trabalhos realizados e por ser fundadora do projeto. É uma homenagem às minhas avós Marta e Rosemeire, realizadas exclusivamente em mulheres que venceram o câncer de mama e tem cicatrizes decorrentes da mastectomia.

 Através do projeto realizo esse trabalho sem custo algum para a paciente que passou pela cirurgia. Fora do projeto, realizo para aquelas que colocaram silicone e querem recuperar a autoestima, durante o ano todo.  Para isso realizamos uma avaliação pessoalmente, para saber as necessidades específicas de cada mulher, uma vez que cada caso apresenta suas particularidades. O estudo das cores é realizado através do procedimento chamado colorimetria, no qual observamos o tom real da pele para garantir um desenho mais realista possível”, enfatiza a tatuadora. 

 OSM- Qual conselho para quem está começando?

Paty  – Realmente pode ser clichê, mas não desista dos seus sonhos. A tatuagem é algo sério que a pessoa vai levar para o resto da vida, então temos que fazer com muito carinho e muita atenção. Para isso, tem que estudar muito e levar muito a sério. Não desista, principalmente as mulheres, continuem alcançando o seu espaço, pelo trabalho, pelo amor e pelo carinho da profissão.

Quem quiser conhecer o trabalho de Paty, o estúdio dela fica na Rua Antônio Maria Coelho, 4530, Santa Fé.

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