
O recente aumento do IPTU em Campo Grande foi apresentado como medida necessária para reforçar o caixa municipal. A narrativa oficial buscou transmitir normalidade administrativa. Os números, porém, contam outra história. Em vez de ampliar receitas, o Município já registra uma queda aproximada de 200 milhões de reais na arrecadação. Não se trata de detalhe contábil, mas de um sinal claro de que algo foi mal calibrado.
O impacto do aumento foi imediato e perceptível. Independentemente da discussão técnica sobre correção monetária ou não, o contribuinte sentiu no bolso um acréscimo real. E o comportamento do contribuinte não é abstrato nem ideológico; é prático. Quando o valor cobrado ultrapassa o limite do razoável, a reação natural é recuar, adiar, questionar ou simplesmente esperar.
Na iniciativa privada, essa lógica é elementar. Quando uma empresa precisa aumentar fluxo de caixa, raramente começa elevando preços de forma abrupta. O caminho costuma ser o inverso: promoção, desconto, facilitação de pagamento, estímulo ao consumo. O objetivo é ampliar a base, acelerar a entrada de recursos e preservar o relacionamento com o cliente.
No setor público, adotou-se a estratégia oposta. O aumento do IPTU veio acompanhado da redução do desconto para pagamento à vista e inserido em um ambiente já conhecido pelo contribuinte: o da previsibilidade dos REFIS. Campo Grande, historicamente, promove programas de renegociação com redução de juros e multas. Isso criou, ao longo do tempo, uma cultura silenciosa de espera. Muitos contribuintes aprenderam que pagar em dia nem sempre é a decisão mais racional.
Diante desse cenário, o aumento recente produziu um efeito previsível. Parte significativa dos contribuintes optou por não pagar. Não por incapacidade, mas por cálculo. O resultado foi a retração da arrecadação, o aumento da inadimplência e a transferência do problema para o futuro, com maior custo de cobrança e judicialização.
Esse fenômeno não é isolado nem local. Recentemente, o governo federal decidiu aumentar a tributação sobre pequenas importações realizadas por plataformas populares. O discurso foi de justiça fiscal e incremento de receita. O efeito prático foi o oposto: queda no volume de operações e frustração arrecadatória. Mais imposto, menos arrecadação.
Campo Grande repete a mesma lógica. Ao elevar o IPTU sem criar estímulos claros à adimplência, o Município apostou na força da cobrança e ignorou o comportamento do contribuinte. O resultado está nos números. O aumento não cumpriu sua finalidade e ainda agravou a sensação de insegurança e desconfiança.
Arrecadar bem exige mais do que elevar valores. Exige estratégia, previsibilidade e coerência. Incentivar o pagamento à vista, premiar quem paga em dia, oferecer condições realistas e comunicar com clareza são medidas mais eficazes do que impor aumentos abruptos em um ambiente já fragilizado.
O recente aumento do IPTU deixa uma lição simples e incômoda: cobrar mais não significa arrecadar mais. Quando essa diferença é ignorada, o caixa sente rapidamente. E, neste caso, sente em centenas de milhões.