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O relógio biológico do Pantanal

O ciclo anual de cheia e seca rege não apenas a fauna e a flora, mas o calendário de trabalho, o transporte e a vida social das comunidades pantaneiras. Quando esse relógio se desregula, o que acontece com quem depende dele para viver?

21/03/2026 às 19h40
Por: Marcelo Tognini
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Foto: Mario Alves para o Projeto Bandeiras e Rodovias - Anteaters and Highways Project
Foto: Mario Alves para o Projeto Bandeiras e Rodovias - Anteaters and Highways Project

No início de março de 2026, famílias que vivem em fazendas do Pantanal do Paiaguás, entre Sonora e Coxim, no Mato Grosso do Sul, ficaram sem acesso a alimentos. As chuvas dos dias anteriores cobriram o aterro da estrada que liga a região à BR-163, e o caminho simplesmente deixou de existir. Crianças, idosos e peões foram os primeiros a sentir o isolamento. A via não havia recebido manutenção naquele ano. Em janeiro, o rio Paraguai já registrava em Ladário uma cota média de 0,79 metro, quase meio metro abaixo do nível de janeiro de 2025. A água que faltava no rio sobrava na estrada.

A contradição é aparente. No Pantanal, a maior planície alagável do planeta, com mais de 160 mil quilômetros quadrados entre o Brasil, a Bolívia e o Paraguai, a água nunca está onde se espera que esteja, a não ser que se entenda a lógica do ciclo. Quem vive ali sabe que existe um calendário anterior a qualquer agenda: o da cheia e o da seca. Esse ciclo hidrológico, com chuvas concentradas entre outubro e março e estiagem de abril a setembro, organiza há séculos o ritmo de trabalho, o deslocamento, a alimentação, o lazer e os encontros de ribeirinhos, pescadores, peões e fazendeiros. É um relógio que não marca horas, mas estações.

Como funciona o relógio

O mecanismo é relativamente simples na descrição e complexo nos efeitos. Durante o verão, as chuvas nas cabeceiras dos rios, no planalto da Bacia do Alto Paraguai, fazem os cursos d'água transbordar sobre os campos da planície. A água avança lentamente pelos corixos, conecta lagoas, forma extensas áreas alagadas contínuas. No auge da cheia, entre fevereiro e abril, a paisagem se transforma: campos viram lagos rasos, estradas desaparecem, o gado precisa ser deslocado para áreas mais altas. Depois, a partir de maio, as águas recuam. Os corpos d'água voltam a se fragmentar. Os campos ressurgem com pastagem verde. Os peixes ficam concentrados em lagoas cada vez menores, atraindo bandos enormes de aves. O solo seca, as estradas reaparecem, e o Pantanal muda de forma outra vez.

Esse pulso de inundação, como os pesquisadores chamam, é o motor do ecossistema. Mas é também o motor da vida social. A Embrapa Pantanal, sediada em Corumbá, documenta há décadas como as comunidades desenvolveram modos de vida profundamente adaptados a essa oscilação. Thiago Coppola, analista da instituição, resume: a cultura pantaneira é específica, local, própria da região. Não se compreende o pantaneiro sem compreender a água.

O trabalho que a água dita

A pecuária extensiva, atividade econômica central do Pantanal há mais de dois séculos, obedece ao ciclo como a uma lei natural. Na cheia, o gado é conduzido para as partes elevadas da planície, os capões e as cordilheiras, formações de vegetação mais alta que servem de refúgio. Era nesse movimento que nasciam as comitivas pantaneiras, grupos de peões que transportavam boiadas a cavalo por dias ou semanas, através de campos alagados, até áreas de engorda em outros biomas. As comitivas eram trabalho duro e, ao mesmo tempo, a base de uma cultura inteira: música, culinária, vocabulário, relações sociais, tudo se forjava nesses deslocamentos. Hoje, embora a logística tenha mudado, a lógica permanece. A cheia manda o gado para cima; a seca o traz de volta aos campos.

A pesca segue calendário paralelo. Os ribeirinhos de Corumbá, do Paraguai Mirim, da Barra do São Lourenço, vivem da venda de pescado e da coleta de iscas vivas, especialmente a tuvira, para o turismo de pesca esportiva. Na seca, quando os peixes se concentram em poças e lagoas marginais, a captura é mais farta e o acesso aos pontos de pesca, mais fácil. Na cheia, a dispersão dos cardumes obriga o pescador a mudar de estratégia, de área e, muitas vezes, de ofício. Alguns trabalham temporariamente como piloteiros para turistas. Outros prestam serviço em fazendas, como cuidadores, cozinheiros ou caseiros. O seguro-defeso, período em que a pesca é proibida para garantir a reprodução das espécies, se sobrepõe a parte do ciclo da cheia, e os atrasos no pagamento do benefício, recorrentes, agravam a insegurança econômica dessas comunidades.

O turismo, por sua vez, é quase inteiramente sazonal. A seca, de julho a outubro, é o período de maior demanda: os animais se aglomeram nas margens de rios e lagoas, facilitando a observação; a Transpantaneira e a Estrada Parque ficam transitáveis; as pousadas operam com lotação alta. Na cheia, o fluxo diminui. Algumas pousadas reduzem equipe. Os passeios de barco ganham importância, mas o acesso rodoviário se complica. Em 2024, durante a seca histórica que atingiu o bioma, até os passeios fluviais foram prejudicados: o rio Pixaim ficou tão raso que uma pousada precisou reduzir de uma hora para quarenta minutos a duração dos percursos oferecidos aos visitantes.

Estradas que somem, vidas que param

A questão do transporte talvez seja a tradução mais concreta do poder do ciclo sobre a vida cotidiana. A Estrada Parque Pantanal, antiga Estrada Boiadeira traçada pelo Marechal Rondon no fim do século XIX, foi construída sobre aterros de um a três metros de altura, na tentativa de garantir tráfego o ano inteiro. O objetivo nunca foi plenamente alcançado. Nas grandes cheias, a água invade a pista em vários pontos. A balsa que cruza o rio Paraguai na Manga é suspensa. As comunidades ao longo dos 120 quilômetros da estrada, onde vivem cerca de 450 pessoas, ficam dependentes de lanchas e barcos para qualquer deslocamento. São moradores do Porto da Manga, do Passo do Lontra, das pousadas e fazendas da Nhecolândia.

A Transpantaneira, no Mato Grosso, com suas mais de 120 pontes de madeira entre Poconé e Porto Jofre, enfrenta desafio semelhante. Na estação chuvosa, veículos de passeio não conseguem transitar por boa parte do trajeto. No período seco, a mesma estrada vira corredor de observação de fauna, atraindo turistas de dezenas de países. Para quem vive ali permanentemente, a alternância significa meses de relativo isolamento seguidos de meses de circulação intensa.

Essa situação começa a mudar, ainda que lentamente. Em janeiro de 2026, foi anunciada a construção de uma ponte de concreto sobre o rio São Lourenço, orçada em 60 milhões de reais, para ligar a Transpantaneira à rodovia MS-214 e criar a chamada Rota da Onça. O projeto promete travessia permanente, inclusive durante as cheias, e melhor acesso a serviços de saúde, educação e comércio para as comunidades da região. Mas a obra ainda está em fase de projeto, e a realidade presente continua sendo a do aterro que some debaixo d'água.

Quando o relógio se desregula

Nos últimos anos, o ciclo que sempre regeu a vida no Pantanal passou a apresentar sinais de desarranjo. Os dados são consistentes. Segundo o MapBiomas, a primeira grande cheia registrada no Pantanal, em 1988, inundou 6,8 milhões de hectares. A última cheia expressiva, em 2018, cobriu 5,4 milhões de hectares, 21% menos. Em 2023, a área alagada caiu para 3,3 milhões de hectares, uma redução de 38% em relação a 2018. O Pantanal foi o bioma brasileiro que mais perdeu superfície de água em relação à média histórica: 61%, segundo o mesmo levantamento.

As causas são múltiplas e se reforçam mutuamente. O desmatamento no planalto da Bacia do Alto Paraguai, onde ficam as nascentes dos rios que alimentam a planície, reduz o volume de água que chega ao sistema. A substituição de florestas por pastagens e monoculturas acelera o escoamento superficial e aumenta a sedimentação nos rios. As mudanças climáticas alongam os períodos secos, intensificam as ondas de calor e tornam as chuvas mais irregulares. Carlos Padovani, pesquisador da Embrapa Pantanal, alerta que o bioma vive um ciclo de seca que não ocorria desde a década de 1960, e que não se sabe quanto tempo vai durar.

O impacto sobre as comunidades é direto. Secas mais longas significam menos peixe, menos pasto, mais incêndio. Em 2020, cerca de 30% do bioma ardeu. Em 2024, o rio Paraguai atingiu, na régua de Ladário, o nível negativo recorde de menos 0,69 centímetro, e o fogo consumiu 2,6 milhões de hectares. Pescadores relatam queda de renda. Fazendeiros perdem gado. O turismo oscila entre anos de fartura e anos de crise. A alteração dos períodos de cheia e seca, como apontou o SOS Pantanal, prejudica os modelos econômicos de sobrevivência, a oferta de recursos naturais e todo o âmbito social das comunidades.

Em 2025, as chuvas voltaram com força nas cabeceiras do norte do bioma. Em Cáceres, a cota do rio Paraguai ficou mais de 92% acima do registrado no mesmo período de 2024. Os ipês floresceram na Serra do Amolar, e o fotógrafo José Medeiros registrou o contraste com o ano anterior, quando a mesma área ardia sob fumaça. Mas a alegria foi breve. Em 2026, a chuva acumulada nos oito meses anteriores ficou 7% abaixo da média histórica, e em janeiro o índice pluviométrico foi 60% menor que o de janeiro de 2025. A tendência de início de ano seco, segundo Padovani, é sinal de alerta para novo período de pouca água na planície.

Um modo de vida em suspensão

O pantaneiro construiu, ao longo de gerações, um repertório de adaptação ao ciclo da água. Sabe quando plantar, quando pescar, quando mover o rebanho, quando estocar, quando esperar. Essa inteligência prática, transmitida de pai para filho, está na raiz de uma cultura que se expressa na culinária (o arroz carreteiro, o peixe na brasa, a carne seca), na música (o cururu, o siriri, as modas de viola pantaneira), nas festas (as cavalhadas, os bailes de fazenda, as procissões fluviais), nas relações de trabalho (a lealdade entre patrão e peão, o mutirão, a comitiva) e na relação com o território (o conhecimento dos caminhos da água, das áreas de refúgio, dos pontos de pesca, dos sinais do tempo).

Quando o ciclo se desregula, não é apenas a economia que sofre. É um modo de vida que perde previsibilidade. O saber acumulado de quando o rio enche e quando seca, de quando o peixe sobe e quando desce, de quando o campo rebrota e quando resseca, começa a falhar. O pescador que conhecia o calendário dos cardumes passa a errar. O fazendeiro que sabia a hora de mover o gado é surpreendido por secas fora de época ou cheias tardias. O turismo, dependente de regularidade climática para planejar suas temporadas, opera em incerteza crescente.

A pressão vem também de outros lados. Projetos de expansão da hidrovia do rio Paraguai, pensados para escoar commodities com mais velocidade, preocupam comunidades ribeirinhas. Edinalda do Nascimento, secretária-executiva de um coletivo de comunidades tradicionais, denuncia que obras e empreendimentos avançam sem consulta adequada às populações locais. A retificação do rio, argumentam pesquisadores, aceleraria o escoamento das águas e reduziria os alagamentos que sustentam o bioma. Um Pantanal com menos alagamento é um Pantanal com menos peixe, menos pasto nativo, menos fauna, menos turismo, menos pantaneiro.

O que está em jogo

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou que o Pantanal pode deixar de existir antes de 2100. O cientista Carlos Nobre estimou um prazo ainda menor: menos de 70 anos. São projeções, não certezas. Mas o que já se observa nos dados e no cotidiano das comunidades é um bioma que está secando mais rápido do que se esperava, com consequências que vão além da ecologia.

O Pantanal ainda preserva 84% de sua vegetação nativa no lado sul-mato-grossense, índice que o torna o bioma mais conservado do país. A pecuária extensiva, quando praticada nos moldes tradicionais, funciona como aliada da conservação: mantém pastagens nativas, reduz biomassa combustível, permite a coexistência com a fauna silvestre. Estudos citados pela Embrapa indicam que fazendas sem pecuária perderam até 90% de sua vegetação para o fogo em 2020, contra perdas significativamente menores em propriedades manejadas. Mas esse equilíbrio depende do ciclo. Sem a alternância regular entre cheia e seca, o sistema inteiro, ecológico e humano, perde sustentação.

Para quem vive na planície, o relógio biológico do Pantanal nunca foi metáfora. É a estrutura que organiza os dias, as semanas, os meses e os anos. A cheia traz o isolamento, mas também a renovação dos campos, a reprodução dos peixes, o reabastecimento das lagoas. A seca traz o trabalho intenso, os encontros, o trânsito, o turismo, mas também o fogo e a poeira. Cada fase tem suas exigências e seus benefícios, e a sabedoria pantaneira consiste, há muito, em aceitar ambas.

O que preocupa agora não é a cheia nem a seca, mas a imprevisibilidade. Um relógio que ninguém mais consegue ler.

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