
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) abriu uma apuração preliminar sobre o atendimento a Anna Laura Insarralde de Araújo, de 8 meses, que morreu de pneumonia em 11 de outubro no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS), em Campo Grande. O procedimento foi registrado na 32ª Promotoria de Justiça de Saúde Pública e veio a público nesta quinta-feira (22).
Antes de chegar ao Regional, a bebê passou pela UPA Universitário. De lá, foi encaminhada pela regulação municipal à ala pediátrica do Hospital de Câncer Alfredo Abrão (HCAA), que não tem UTI pediátrica. A família quer saber por que ela não foi levada direto a um hospital com terapia intensiva. Os pais registraram boletim de ocorrência e levaram a denúncia ao Ministério Público.
O MPMS registrou uma Notícia de Fato, o procedimento inicial que serve para reunir informações antes de decidir se o caso vira investigação formal ou é arquivado. O prazo é de 30 dias, prorrogável por até 90. A promotoria pediu informações à Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), à Secretaria de Estado de Saúde (SES), à Fundação Serviços de Saúde (Funsal), que administra o HRMS, ao HCAA, ao Conselho Regional de Medicina (CRM-MS) e à Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca). Até agora, a apuração não aponta irregularidade nem responsável.
Sesau diz que seguiu protocolos
Em nota, a Sesau afirmou que os pedidos de transferência foram enviados aos serviços de referência e passaram pela avaliação e pelo aceite dos hospitais, conforme os fluxos de regulação. Segundo a secretaria, todas as ações administrativas e de regulação seguiram os protocolos em vigor, e a pasta vai acompanhar a apuração.
A nota não informa em que horário a UPA pediu a vaga, quais hospitais foram consultados nem se faltava leito de UTI pediátrica naquele momento. O portal enviou essas perguntas à Sesau nesta sexta-feira (23) e aguarda resposta.
Cinco horas entre a UPA e a UTI
Anna Laura voltou à UPA Universitário no início da manhã de 10 de outubro, com febre alta, vômitos e diarreia. Três dias antes, um raio-x feito na mesma unidade tinha mostrado uma mancha no pulmão, e ela havia sido liberada com antibiótico. Como a oxigenação continuou caindo, a equipe pediu vaga hospitalar, e a bebê deixou a UPA por volta das 13h59.
Segundo o HCAA, ela deu entrada às 15h05, com pneumonia, e foi para um leito semi-intensivo. O prontuário do hospital, apresentado pela família, registra saturação de 90% mesmo com oxigênio e dificuldade para respirar. Às 17h20, o HCAA pediu transferência para um hospital com UTI pediátrica, e a bebê foi levada ao Regional por volta das 18h.
No HRMS, ela foi intubada e levada à terapia intensiva. Morreu às 4h35 de 11 de outubro. A certidão de óbito aponta insuficiência respiratória, choque séptico, pneumonia e hemorragia das vias respiratórias, entre outras causas.
Ala pediátrica sem UTI
A ala do HCAA que recebeu Anna Laura é de pediatria clínica, separada da oncologia. Foi criada por convênio com a Prefeitura de Campo Grande em junho de 2026 para reduzir a espera de crianças nas UPAs. São 24 leitos para crianças de até 12 anos. O hospital informou que casos que precisam de terapia intensiva são encaminhados a outras unidades.
O HCAA afirma que deu continuidade ao tratamento iniciado na UPA, sem medicação nova. O HRMS disse que vai prestar esclarecimentos durante a investigação policial. Na Depca, o boletim foi registrado como morte de causa indeterminada. A Associação de Vítimas de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul (Avem-MS), que acompanha a família, vai encaminhar um documento próprio ao MPMS.