
Sérgio Roberto Castilho Vieira, o Serginho, que por anos trabalhou como assessor do deputado federal Dagoberto Nogueira (PP), é apontado pelo Ministério Público Estadual como beneficiário de propina no esquema que desviou R$ 18 milhões do Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa, em Sidrolândia. Ele é um dos alvos da Operação Dirty Pix.
Segundo a investigação, revelada pelo site O Jacaré, Serginho passou a cobrar pagamentos do presidente do hospital, Jacob Meeuwis Breure, assim que a Itaipu Binacional começou a liberar os R$ 8,5 milhões previstos em convênio para a reforma da unidade.
Recado pela previsão do tempo
Para não falar abertamente de dinheiro, os dois usavam expressões cifradas, de acordo com o MPE. Em 24 de agosto de 2024, Serginho avisou Jacob de que a “previsão” era de “8 graus” na segunda-feira seguinte, o que os promotores interpretam como referência à liberação da verba, que de fato caiu naquele dia. Dois dias depois, ele cobrou o dirigente por não ter avisado da chegada do recurso e passou a dizer que estava “com sede”, código que, segundo a investigação, significava a cobrança da propina.
R$ 290 mil em notas frias
A primeira parcela liberada pela Itaipu foi de R$ 1,714 milhão. Em 3 de setembro de 2024, conforme o Grupo Especial de Combate à Corrupção (GECOC), foi acertado o repasse de R$ 290 mil a Serginho, pago por meio de duas notas fiscais: uma de R$ 210 mil, emitida pelo próprio hospital como se fosse pagamento por um projeto arquitetônico, e outra de R$ 80 mil, emitida pela Global Produtos Agropecuários, empresa de Jacob Breure.
Para o MPE, as notas eram frias e serviam para dar aparência legal a transferências que, na prática, remuneravam os participantes do esquema e dificultavam a identificação de quem recebia o dinheiro.
Pagamentos em espécie
As cobranças continuaram à medida que novos recursos eram liberados, tanto pela Itaipu quanto pela Prefeitura de Sidrolândia. O MPE afirma ter havido pagamentos em dinheiro vivo em novembro e dezembro de 2024, com encontros presenciais combinados por mensagem, mas os promotores Adriano Lobo Viana de Resende, Humberto Lapa Ferri e Bianka Mendes não conseguiram determinar os valores. Por isso, pediram à juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, a quebra do sigilo bancário dos investigados.
Ligação com o deputado
Serginho aparece no portal da Câmara dos Deputados como assessor parlamentar de Dagoberto entre dezembro de 2016 e 2021. Antes, foi superintendente da Funasa e dirigente do PDT, partido ao qual o deputado era filiado na época. Nas eleições deste ano, doou R$ 25 mil à campanha de reeleição de Dagoberto, o terceiro maior valor recebido pelo candidato, atrás apenas da direção nacional do PP (R$ 2,6 milhões) e do próprio deputado (R$ 310 mil).
Outro lado
Procurado pelo Portal OSM, Dagoberto respondeu cerca de cinco horas depois, após a publicação da reportagem. O deputado disse não saber se o ex-assessor recebeu propina e afirmou não acreditar nisso. Segundo ele, Serginho é engenheiro e costuma ser consultado por empresas de projetos antes da entrega dos trabalhos. “O quanto ele cobra para essa assessoria, não sei, sei que é muito preparado e requisitado”, declarou. Dagoberto também disse não acreditar que Serginho tenha falado em nome dele, “apesar de sermos amigo há mais de 40 anos”. O deputado não respondeu às perguntas sobre o convênio com a Itaipu, a relação com Jacob Breure, a doação de campanha e se foi procurado pelo MPE ou pela polícia.
Atualizada às 15h45 para incluir o posicionamento do deputado Dagoberto Nogueira.