
“Eu sinto falta de sentir uma medalha no meu peito.” Aos 13 anos, Lucas Morais da Silva sente saudade de algo que fazia parte de sua infância: competir, jogar bola e ouvir a torcida. Desde um grave acidente de trânsito, em janeiro de 2023, o menino enfrenta uma sequência de cirurgias e tratamentos que o afastaram do esporte.
Ao ouvir o desabafo, a mãe, Michelly Morais Barbosa, tentou confortá-lo. “Filho, você já tem uma medalha, que é a vida”, respondeu. Mas sabe que o filho ainda sonha em voltar a competir.
Três anos depois do acidente, Lucas continua dependendo de muletas para sair de casa e precisa de uma cirurgia para reconstruir o calcanhar direito. Enquanto aguarda o tratamento pelo poder público, a família tenta arrecadar R$ 40 mil para quitar um empréstimo feito para outra cirurgia e custear despesas com transporte, consultas e fisioterapia. Até o momento, a campanha arrecadou R$ 16 mil.
Aos 10 anos, Lucas ficou conhecido como “MC Perna Quebrada” depois que um vídeo dele cantando durante a internação na Santa Casa de Campo Grande ganhou repercussão. Na música, o menino dizia que queria voltar para casa e jogar futebol. Três anos depois, esse desejo ainda faz parte de sua vida.
Hoje, enquanto os amigos jogam bola na escola ou andam de bicicleta pelo bairro, Lucas passa boa parte do tempo em casa. Gosta de ler, assistir a filmes e séries, desenhar, pintar e escrever poesias. Também mantém contato com os amigos, especialmente Murilo, que mora perto e costuma visitá-lo quase todos os dias.
Aluno do 9º ano, Lucas está temporariamente afastado das aulas por causa da recuperação de uma cirurgia no joelho. Segundo a mãe, a expectativa é que retorne à escola em breve. Entre as disciplinas preferidas estão português, pela facilidade com a interpretação de textos, e matemática, pela satisfação de encontrar a resposta certa.
Apesar das limitações físicas, o adolescente não abandonou os planos para o futuro. Quando perguntado sobre a profissão que deseja seguir, responde sem hesitar: “Quero ser jogador de futebol ou boxeador”.
O futebol fazia parte de sua rotina antes do acidente. Depois, Lucas descobriu o boxe, modalidade na qual encontrou uma maneira de continuar praticando esporte mesmo com as dificuldades para apoiar o pé direito.
“Eu faço tudo na ponta do pé. Isso até me facilitou no boxe, porque a movimentação é na ponta do pé”, explica.
Mas é da competição que ele sente mais falta. Michelly se recorda de quando o filho falou sobre a saudade das medalhas.
“Ele falou: ‘Mãe, eu sinto falta da competição, de sentir uma medalha no meu peito, o peso dela aqui, a torcida olhar pra mim e ver ela brilhando, gritando por mim’. Eu só pude responder: ‘Filho, você já tem uma medalha, que é a vida’. Mas ele é atleta. A gente vai ter que achar esportes que ele possa fazer.”
Um acidente e três anos de tratamento
A vida de Lucas mudou em 11 de janeiro de 2023, quando ele tinha 10 anos e sofreu um acidente de trânsito em Campo Grande.
O impacto provocou uma fratura no fêmur direito e uma lesão grave no pé do mesmo lado, que chegou a deixar exposto o osso do calcanhar.
Internado por 40 dias na Santa Casa, o menino passou por duas cirurgias no fêmur, utilizou um fixador externo durante seis meses e precisou de três procedimentos de limpeza cirúrgica no pé, além de um enxerto de pele.
Apesar dos tratamentos, a lesão no calcanhar não cicatrizou completamente. Lucas perdeu o chamado coxim plantar, camada de gordura que protege o osso e ajuda a absorver o impacto ao caminhar. Também desenvolveu rigidez no tornozelo e uma alteração na posição do pé, conhecida como pé equino.
Na prática, ele não consegue apoiar normalmente o calcanhar direito no chão. Para sair de casa, depende de muletas.
A situação se agravou em maio deste ano, quando Lucas caiu durante uma aula de educação física e rompeu o menisco do joelho direito. A lesão exigiu uma nova cirurgia, realizada em 3 de agosto.
O procedimento, segundo Michelly, deveria durar aproximadamente 40 minutos, mas levou duas horas.
“O coração da mãe passou uma, passou uma e meia, e cadê esse menino? Foram duas horas de cirurgia, porque realmente já fazia tempo que o menisco estava fora do lugar”, relata.
Mãe fez empréstimo de R$ 30 mil para operar o filho
Diante da necessidade de operar o joelho e sem conseguir realizar o procedimento a tempo pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Michelly recorreu a um empréstimo de R$ 30 mil para pagar a cirurgia particular.
A dívida passou a fazer parte de uma rotina que já incluía consultas, exames, deslocamentos e tratamentos de recuperação.
“Como não deu pra esperar pelo SUS, a gente fez um empréstimo. O valor da cirurgia ficou em R$ 30 mil. Mas ainda têm os custos de transporte, a fisioterapia, que é algo que pra ele vai ser necessário por um bom tempo, e os juros do empréstimo”, explica.
A mãe acompanha o tratamento desde o acidente. Nesse período, procurou médicos, enfrentou filas de atendimento, buscou auxílio jurídico e tentou alternativas fora de Mato Grosso do Sul para conseguir os procedimentos necessários.
Hoje, sua maior preocupação é a condição do calcanhar do filho e as consequências que a dificuldade para caminhar poderá provocar ao longo dos anos.
Para explicar o problema, Michelly reproduz uma comparação que ouviu dos médicos.
“O Lucas hoje é como se fosse um carro desbalanceado e desalinhado. Se a gente anda com um carro assim, os pneus gastam mais rápido, gasta mais combustível, o motor todo fica detonado. É isso que vai acontecer com ele.”
Cirurgia no calcanhar depende do poder público
Além da recuperação do joelho, Lucas precisa passar por uma cirurgia reconstrutiva no calcanhar direito.
O procedimento é diferente daquele realizado em agosto e busca reconstruir a região lesionada, permitindo uma melhor sustentação do pé.
Um relatório médico da Santa Casa, de maio de 2026, apontou a necessidade de uma reconstrução com técnica microcirúrgica especializada. O documento também registrou a dificuldade de realizar esse tipo de procedimento na rede pública de Mato Grosso do Sul.
Em junho, a Justiça determinou que o poder público providenciasse o tratamento necessário. Segundo a família, a cirurgia reconstrutiva ainda não foi realizada.
Enquanto aguarda uma solução, Lucas continua convivendo com as limitações físicas e com a necessidade de acompanhamento médico.
Para Michelly, a espera tem sido desgastante. Ela conta que nem sempre consegue esconder a preocupação ao ver o sofrimento do filho.
“Quando eu vejo ele e vejo as dificuldades que ele tem… Às vezes ele chora, eu falo: ‘Chorar hoje?’ Porque a gente tem que ter uma válvula de escape.”
A mãe admite que, em muitos momentos, desejou poder assumir o sofrimento de Lucas.
“Várias vezes eu falava que, se eu pudesse, eu trocaria com ele. Mas eu aprendi que não posso. Cada um tem seu papel. Então hoje eu não troco. Mas o que eu puder fazer pra ajudar, pra acelerar isso, eu faço.”
Fé, desenhos e planos para o futuro
Em meio aos tratamentos, Lucas encontrou na fé e nas atividades artísticas formas de ocupar o tempo e enfrentar as dificuldades.
Católico, o adolescente é devoto de São Carlo Acutis, jovem italiano canonizado pela Igreja Católica, com quem se identifica pelo interesse em videogames, futebol e pela vida religiosa.
Antes de uma das cirurgias, Lucas visitou com a mãe uma capela dedicada ao santo. Foi nessa ocasião que encontrou um caderno de desenhos que passou a acompanhá-lo.
“Antes da cirurgia, a gente foi lá na capela de São Carlos Acutis, pra dar bênção e acabamos encontrando esse caderninho de desenho”, recorda.
Michelly, que é catequista, conta que a religião sempre fez parte da rotina da família. Lucas frequentava a catequese regularmente, mas precisou reduzir a participação por causa do tratamento.
“Não há nada tão ruim que a gente não possa tirar algo positivo. A fé ajuda muito a passar por esses desafios”, afirma.
Entre os desenhos, os estudos e as visitas dos amigos, Lucas continua fazendo planos. O principal deles permanece ligado ao esporte e à possibilidade de voltar a competir.
Como ajudar Lucas
Para enfrentar as despesas acumuladas, a família organizou uma campanha de arrecadação com meta de R$ 40 mil. Desse total, R$ 16 mil já foram arrecadados.
O dinheiro não será utilizado para pagar a cirurgia reconstrutiva do calcanhar, que é objeto da decisão judicial e deve ser providenciada pelo poder público.
A arrecadação será destinada principalmente ao pagamento do empréstimo de R$ 30 mil contraído para a cirurgia do joelho, além dos juros da dívida, despesas de transporte e custos com fisioterapia e acompanhamento da recuperação.
Michelly explica que não existe um prazo específico para encerrar a campanha, mas que a arrecadação mais rápida ajudaria a reduzir o impacto dos juros sobre o orçamento familiar.
Quem quiser contribuir pode fazer uma transferência de qualquer valor pela chave PIX divulgada pela família.
Meta: R$ 40 mil
Valor arrecadado: R$ 16 mil
Chave PIX: [email protected]
Titular: Michelly Morais Barbosa