
O vírus Nipah voltou ao noticiário internacional após a confirmação recente de casos entre profissionais de saúde no estado de Bengala Ocidental, na Índia, região que não registrava ocorrências desde 2007. Apesar da alta letalidade associada à doença, especialistas avaliam que não há motivo para alarme no Brasil.
De acordo com o médico infectologista do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), Alexandre Bertucci, mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias, o risco de surgimento de surtos no país é considerado muito baixo. Segundo ele, eventuais registros estariam limitados a casos importados, com vínculo epidemiológico direto com áreas onde há circulação ativa do vírus, como a Índia.
“A principal mensagem para a sociedade é evitar o alarmismo. Embora seja uma doença grave, com alta letalidade, o risco de transmissão e chegada do vírus Nipah ao Brasil é considerado muito baixo”, afirmou o infectologista.
O Nipah é um vírus de origem zoonótica, transmitido de animais para humanos. O principal reservatório natural são morcegos frugívoros do gênero Pteropus, conhecidos como morcegos-das-frutas. A infecção pode ocorrer por contato direto com secreções desses animais, como saliva e secreções respiratórias, além da ingestão de alimentos contaminados. Em alguns contextos, porcos podem atuar como hospedeiros intermediários. Também há registro de transmissão entre humanos, especialmente em ambientes hospitalares, por meio do contato com secreções respiratórias e outros fluidos corporais.
Um dos principais desafios relacionados à doença é a dificuldade no diagnóstico inicial. Conforme explica Bertucci, os sintomas nas fases iniciais são inespecíficos e podem atrasar a suspeita clínica. Os primeiros sinais costumam aparecer entre três e 14 dias após o contato com o vírus e incluem febre, dor de garganta, tosse, dor de cabeça e falta de ar. Em casos mais graves, a infecção pode evoluir rapidamente para manifestações neurológicas, como tontura, sonolência, alteração do nível de consciência e encefalite aguda, inflamação do cérebro que pode levar à morte em até 75% dos casos.
O diagnóstico pode ser confirmado por exames laboratoriais que identificam o vírus em fluidos corporais, como sangue, urina, líquor e secreções das vias respiratórias. Atualmente, não existe tratamento específico nem vacina contra o vírus Nipah. O atendimento médico é baseado em tratamento de suporte, com hidratação, controle dos sintomas e monitoramento rigoroso de complicações respiratórias e neurológicas.
A prevenção envolve medidas clássicas de controle de infecções, como isolamento de casos suspeitos, higienização frequente das mãos, uso de máscaras em ambientes de risco, além de evitar contato com pessoas doentes, animais potencialmente infectados e alimentos contaminados. Em serviços de saúde, o reforço das práticas de biossegurança é considerado essencial.
O infectologista também destacou o papel dos hospitais universitários da Rede Ebserh na vigilância epidemiológica. Segundo ele, unidades como o Humap-UFMS são estratégicas para a identificação precoce de quadros suspeitos, especialmente casos de encefalite aguda associados a histórico de viagem ou vínculo com regiões onde o vírus circula, permitindo o acionamento rápido das autoridades sanitárias.
Por fim, a orientação é buscar informações apenas em fontes oficiais, como o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde, evitando a disseminação de desinformação.