
Imagine a cena. Uma mulher entra num banheiro de shopping. É o feminino, está sinalizado, ela conferiu. Atrás dela, entra outra pessoa. Pode ser uma mulher trans, pode ser um homem que se autodeclara mulher naquela tarde, pode ser qualquer um que tenha lido nos jornais que agora se entra onde se quer.
A primeira mulher não sabe quem é a segunda. Ela só sente o que toda mulher sente quando está sozinha num espaço fechado com alguém que não consegue ler. Mede com o canto do olho. Calcula a distância até a porta. Decide se vai mesmo usar a cabine.
Esse cálculo, feito em silêncio, todos os dias, em milhões de portas Brasil afora, é o que ninguém quer discutir.
A discussão pública prefere outra coreografia. De um lado, a versão segundo a qual qualquer dúvida sobre o assunto é transfobia disfarçada de senso comum. Do outro, a versão segundo a qual o tema é uma conspiração globalista para destruir a família. As duas versões têm em comum o desinteresse pelo dado concreto.
Em 2024, o Brasil registrou 87.545 estupros e estupros de vulnerável, o maior número da história, e 1.492 feminicídios, também recorde da série iniciada em 2015. Sessenta e cinco por cento das ocorrências aconteceram dentro de casa. Não são números abstratos. São o motivo pelo qual mulheres adultas, e não apenas as conservadoras de carteirinha, hesitam diante de uma porta sem cadeado.
O Supremo Tribunal Federal teve a chance de discutir o assunto a sério e fugiu. Em junho de 2024, por 8 a 3, a Corte cancelou a repercussão geral de um recurso que tramitava desde 2014, e decidiu não decidir o mérito sobre o direito de pessoas trans usarem o banheiro conforme a identidade de gênero. Em dezembro do mesmo ano, confirmou o cancelamento.
O caso concreto envolvia uma mulher trans impedida de usar o banheiro feminino num shopping de Florianópolis. Tese fixada para o país: nenhuma. Sinal emitido: que cada um se vire. Os ministros apresentaram o gesto como prudência processual. É uma forma elegante de dizer que preferiram não tocar no assunto.
Enquanto o Supremo brasileiro abria a porta dos fundos, a Suprema Corte do Reino Unido entrava pela da frente. Em abril de 2025, por unanimidade dos cinco juízes, decidiu que os termos “mulher” e “sexo” no Equality Act de 2010 se referem a mulher biológica e sexo biológico.
A decisão preserva a proteção de mulheres trans contra discriminação por outras vias, mas autoriza, na prática, a exclusão delas de espaços segregados como banheiros, alas hospitalares, abrigos para vítimas de violência e clubes esportivos. O Reino Unido, é bom lembrar, não é um país de ayatolás, e quem moveu a ação foi um grupo feminista.
A imprensa progressista britânica chorou a decisão como um retrocesso. Pode ser. Mas é também uma resposta possível, dada por adultos, a uma pergunta que aqui a gente prefere fingir que não foi feita.
A pergunta é incômoda porque embaraça as duas trincheiras. Quem sustenta o direito incondicional de pessoas trans usarem o banheiro feminino tem dificuldade em reconhecer que o desconforto da mulher cisgênero não é, em si, ódio. Pode ser ódio, evidentemente, e muitas vezes é.
Mas pode ser também experiência acumulada num país onde uma mulher é estuprada a cada seis minutos. Tratar essa hesitação como sintoma moral, e não como informação, é uma forma sofisticada de mandar a mulher calar a boca em nome da sua própria libertação. Há algo de antigo nessa dinâmica.
Quem sustenta o oposto, por sua vez, finge que a vida das pessoas trans é uma abstração jurídica, e não uma rotina de constrangimentos cotidianos. A mulher trans que entra num banheiro masculino também faz cálculos no canto do olho. A diferença é que ela faz isso há mais tempo, e com taxas de violência ainda piores.
O conservador médio, que se comove com o pudor da senhora no shopping, costuma ter pouca paciência para o pudor da senhora trans no mictório. É uma seletividade que diz mais sobre ele do que sobre o tema.
O que sobra, no meio dessa conversa surda, é a constatação de que a política brasileira não suporta o cinza. Ela quer o assunto fechado em slogan, de preferência num que caiba na tarja de manchete.
A solução prática, a tal das cabines individuais que vários países já adotam, parece banal demais para render likes. Construir banheiros de uso individual, ao lado dos masculinos e femininos, é exatamente o que a Resolução 2/2023 do Conselho Nacional LGBTQIA+ recomenda, “sempre que possível”, como forma de minimizar riscos de violência e discriminação.
Custa caro, talvez. Mas custa menos do que o desconforto de bilhões de mulheres todos os dias e do que a humilhação de bilhões de pessoas trans nos outros todos os dias. O problema é que solução prática não cabe em campanha.
Resta a pergunta original, agora reformulada. Obrigar uma mulher a compartilhar um espaço íntimo com alguém de corpo masculino, sem consultá-la, é machismo? A palavra talvez seja grande demais. Mas há, sim, uma assimetria reveladora.
Quando o assunto é o conforto das mulheres no espaço público, a pauta progressista costuma encontrar prioridades urgentes em primeiro lugar. Quando é a hora de comparar o desconforto delas com o de qualquer outro grupo, o desconforto delas vira detalhe sociológico. Esse hábito tem nome em outros contextos. Aqui, virou consenso bem-educado.
Talvez o mais sintomático seja isto: num país com 1.492 feminicídios por ano, a mulher que hesita diante de uma porta de banheiro é a única personagem dessa história que ninguém parece interessado em ouvir.
Os ministros não a ouviram. Os ativistas dos dois lados não a ouvem. Os colunistas explicam para ela o que ela deveria sentir.
Ela continua, em silêncio, fazendo a conta no canto do olho.