
A vulnerabilidade social tem impacto direto no crescimento infantil no Brasil. Estudo publicado na revista científica JAMA Network aponta que crianças indígenas e de estados do Norte e Nordeste apresentam, em média, estatura menor do que a referência considerada adequada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ao mesmo tempo, o excesso de peso avança em outras regiões, incluindo o Centro-Oeste.
A pesquisa contou com a participação de especialistas do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz da Bahia (Cidacs/Fiocruz Bahia) e analisou dados de aproximadamente 6 milhões de crianças de famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), com informações cruzadas do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), desde o nascimento até os 9 anos de idade.
Os pesquisadores avaliaram peso, estatura e adequação aos parâmetros internacionais da OMS, que utiliza curvas de crescimento (escore-z) como referência para desenvolvimento saudável. Para meninos de 9 anos, o peso considerado adequado varia entre 23,2 kg e 33,8 kg, com altura entre 124 cm e 136 cm. Já meninas da mesma idade pesam entre 23 kg e 33 kg e medem de 123 cm a 135 cm.
Segundo o pesquisador Gustavo Velasquez, líder do estudo, as conclusões não significam que todas as crianças indígenas ou do Norte e Nordeste sejam classificadas como de baixa estatura, mas indicam que a proporção é maior nesses grupos. Entre os fatores associados ao comprometimento do crescimento estão dificuldades de acesso à saúde, alimentação inadequada, maior incidência de doenças, baixo nível socioeconômico e condições ambientais desfavoráveis.
Se por um lado a estatura média acompanha, em geral, as referências internacionais, o peso começa a ultrapassar os parâmetros esperados em várias regiões. No Centro-Oeste, onde está Mato Grosso do Sul, 28,1% das crianças apresentam sobrepeso e 13,9% já são consideradas obesas, segundo os dados consolidados pelo estudo.
No Sul, os índices são ainda maiores: 32,6% de sobrepeso e 14,4% de obesidade. No Sudeste, 26,6% têm sobrepeso e 11,7% obesidade. No Nordeste, os índices são de 24% e 10,3%, respectivamente. Já no Norte, 20% das crianças estão com sobrepeso e 7,3% são obesas.
“Pode-se dizer que, em termos de peso, não há problema de subnutrição. Ao contrário, algumas populações, como do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, têm uma prevalência de sobrepeso bastante alta”, afirmou Velasquez.
Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) mostram que o cenário também se reflete em Mato Grosso do Sul. Em 2021, 9,67% das crianças menores de 10 anos acompanhadas na Atenção Primária à Saúde no estado apresentavam peso elevado para a idade. Em 2020, o índice era de 8,85%.
O crescimento acompanha a tendência observada no Centro-Oeste e reforça a necessidade de acompanhamento contínuo na rede básica de saúde.
Segundo o pesquisador, o excesso de peso não significa automaticamente gravidade clínica, pois há margem de tolerância nos parâmetros da OMS. No entanto, parte das crianças já atinge níveis considerados anormais, o que exige atenção.
O estudo também destaca que as condições em que a criança nasce influenciam o risco de obesidade. O acompanhamento durante a gestação e no período pós-natal é apontado como fator relevante para garantir crescimento adequado.
A alimentação é outro ponto central. “Nós temos uma invasão agora de alimentos ultraprocessados, que são considerados como um dos grandes determinantes do aumento de peso, não somente nas crianças, mas em todas as populações”, disse Velasquez.
Apesar do avanço do sobrepeso, pesquisadores internacionais que comentaram o estudo apontaram que o Brasil ainda está em nível intermediário quando comparado a outros países da América Latina. Chile, Peru e Argentina registram índices mais elevados de obesidade infantil.