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Prefeitura de Dourados mente sobre valor dos plantões dos médicos e pagamento real é quase metade

Enquanto divulga R$ 93 por hora, empresa que assume a rede oferece valores que caem para cerca de R$ 55 na prática

16/04/2026 às 17h02 Atualizada em 17/04/2026 às 15h38
Por: João Paulo Ferreira
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Prefeito Marçal Filho divulgou valor de R$ 93 por hora para plantões médicos, mas ofertas da empresa contratada indicam pagamento menor na prática
Prefeito Marçal Filho divulgou valor de R$ 93 por hora para plantões médicos, mas ofertas da empresa contratada indicam pagamento menor na prática

A Prefeitura de Dourados divulgou que os novos contratos de plantão médico na UPA e no Hospital da Vida preveem pagamento de R$ 93 por hora. O número foi apresentado como parte da justificativa para a troca das equipes a partir de 5 de maio, com argumento de economia e manutenção da qualidade do serviço.

No entanto, informações obtidas com profissionais que atuam na rede mostram que esse valor não corresponde ao que será recebido na prática pelos médicos que vão assumir os plantões.

Prints de conversas atribuídas à empresa vencedora da licitação, a Equipe Group, mostram ofertas diretas de plantões por valores entre R$ 750 e R$ 850 para jornadas de 12 horas. Na prática, isso representa cerca de R$ 62 por hora no valor bruto.

Com a incidência de impostos, o valor líquido recebido pelos profissionais cai ainda mais, ficando próximo de R$ 55 por hora — praticamente metade do valor divulgado pela prefeitura.

A diferença ocorre porque o número apresentado oficialmente se refere ao teto ou referência do edital, e não ao valor efetivamente pago ao médico após descontos e condições reais de contratação.

Prefeitura sustenta versão de economia e qualidade

Em publicação oficial, a prefeitura afirmou que a nova contratação representa redução de custos e manutenção da qualidade do atendimento. Segundo a gestão, o valor atual seria de R$ 124 por hora, com referência de edital em R$ 137,83, e a proposta vencedora teria chegado a R$ 93 por hora.

Ainda de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, não haverá demissões, já que os médicos têm vínculo com a empresa prestadora. A nova empresa teria oferecido continuidade aos profissionais, mas cerca de 95% optaram por não permanecer.

A prefeitura também afirmou que os novos médicos deverão apresentar certificações obrigatórias, como ATLS, ACLS e PALS.

Bastidores mostram outra realidade

Profissionais que atuam na linha de frente relatam que a principal razão para a saída em massa dos médicos foi justamente a queda nos valores pagos pelos plantões.

A estimativa é de que cerca de 60 profissionais deixem a UPA e o Hospital da Vida com a entrada do novo contrato.

Os relatos indicam que, diante da redução, houve recusa generalizada em continuar nas escalas. Para recompor as equipes, a empresa passou a recrutar médicos de outras regiões, incluindo estados como Rondônia e Goiás, além de cidades da fronteira.

Troca total acontece de uma vez

A substituição das equipes está prevista para acontecer de forma abrupta. No dia 5 de maio, os profissionais atuais encerram os plantões durante a noite, e uma nova equipe assume completamente as unidades às 7h da manhã seguinte.

Até lá, as escalas seguem sendo mantidas com os médicos atuais.

Rede já opera sob pressão

Enquanto a troca se aproxima, os dados da própria prefeitura confirmam o nível de pressão sobre a rede.

Somente na UPA, foram mais de 11 mil atendimentos em março. No Hospital da Vida, o volume mensal também se mantém elevado, com centenas de internações e cirurgias.

Relatos de profissionais apontam que a unidade já opera com sobrecarga. Em registros recentes, havia mais de 100 pacientes triados, cerca de 90 aguardando atendimento e apenas dois médicos em atividade.

Além da alta demanda, médicos relatam aumento da pressão dentro das unidades, com cobrança direta de pacientes e familiares diante da demora no atendimento.

Epidemia agrava cenário

A mudança ocorre em meio a um período crítico para a saúde pública do município.

Dourados enfrenta epidemia de chikungunya, aumento de casos de síndromes respiratórias e a pressão sazonal típica dos meses que antecedem o inverno.

O município decretou situação de emergência em saúde pública e recebeu apoio da Força Nacional do SUS para enfrentar o aumento da demanda.

Denúncia foi levada ao Ministério Público

Diante da situação, médicos que atuam na rede protocolaram denúncia no Conselho Regional de Medicina (CRM-MS) e no Ministério Público Estadual.

No documento, os profissionais apontam que a redução dos valores e a saída de médicos podem comprometer a continuidade do atendimento e colocar em risco a segurança dos pacientes.

A denúncia também cita possível violação de princípios do SUS, da Constituição Federal e do Código de Ética Médica, que veda o exercício profissional em condições que possam comprometer a qualidade da assistência.

Impacto vai além de Dourados

A UPA e o Hospital da Vida não atendem apenas a população do município, estimada em cerca de 245 mil habitantes.

As unidades são referência para uma macrorregião com aproximadamente 380 mil pessoas, distribuídas em dezenas de cidades.

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