
A professora Izabel Cristina Ferreira, de 60 anos, está internada na Santa Casa de Campo Grande desde 19 de setembro, com um tumor no cérebro, e ainda não foi operada. Segundo a família, a cirurgia é marcada e cancelada seguidamente por falta de anestesista. Enquanto isso, ela passa os dias em jejum à espera do procedimento.
"Eles fazem assim: de segunda a sexta-feira, ela fica de jejum entre 23h e 16h. Quando chega a hora no outro dia, eles falam que não tem anestesista e cancelam", contou a nora, Juliana Rodrigues Cramolish, em relato ao Campo Grande News. "Estamos vivendo uma situação muito angustiante. Minhas cunhadas foram na Ouvidoria e até agora nada."
No mesmo hospital, Luís Fernando Floriano da Silva espera cirurgia no fêmur, que ele quebrou num acidente de moto no domingo (4). Segundo a esposa, o procedimento foi adiado mais de uma vez. "Ele está sentindo muita dor e tontura, além de apresentar inchaço na perna que vem aumentando", relatou.
Dívida com anestesistas
Os cancelamentos ocorrem em meio a um impasse entre a Santa Casa e a Servan Anestesiologia, empresa que presta o serviço de anestesia no hospital. Em comunicado divulgado após uma assembleia em 1º de outubro, a empresa afirmou que a Santa Casa está "inadimplente há mais de três meses". O valor da dívida não foi divulgado.
Na mesma assembleia, os anestesiologistas aceitaram continuar atendendo por mais 30 dias, a pedido do secretário estadual de Saúde, Maurício Simões. O prazo termina no fim de outubro. A empresa disse esperar que o hospital use esse tempo para pagar os profissionais e planejar uma eventual substituição do serviço.
Em nota, a Santa Casa informou que as negociações com os anestesiologistas continuam, que as partes acordaram a prorrogação de 30 dias e que o diálogo segue aberto para chegar a uma solução de consenso.
Dinheiro para remédios
Também nesta terça-feira (6), o Diário Oficial de Campo Grande publicou um convênio de R$ 4 milhões para a Santa Casa. O Governo do Estado entra com R$ 3 milhões e a Prefeitura com R$ 1 milhão. O dinheiro vai para a compra de medicamentos e materiais médico-hospitalares, tem vigência de 120 dias e não cobre a dívida com os anestesistas.
A Secretaria Municipal de Saúde havia anunciado o aporte em 3 de setembro, com a promessa de liberar o valor "nos próximos dias". O convênio foi publicado 33 dias depois.
Hospital sob intervenção
Desde 24 de setembro, a Santa Casa é comandada por um gestor provisório nomeado pela Justiça, o médico Luiz Alberto Kanamura, por 180 dias. A decisão do juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, afastou a diretoria depois da Operação Antidotum, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) em 11 de setembro.
A operação investiga desvios em contratos do hospital e levou à prisão da então presidente, Alir Terra. Em 1º de outubro, a Justiça aceitou a denúncia do MPMS e ela e outras seis pessoas passaram a responder como rés.
A falta de anestesistas é um problema antigo no hospital. Em junho, uma fiscalização do MPMS, da Defensoria Pública e da Secretaria Municipal de Saúde encontrou apenas 4 das 21 salas cirúrgicas funcionando por falta de equipes de anestesia.