
Na lenda, os gregos fingiram ir embora e deixaram um presente: um cavalo monumental à porta de Tróia. Desconfiaram alguns, festejaram outros. Venceu a vaidade. À noite, do ventre de madeira saltaram guerreiros; pela manhã, a cidade ardia. O truque, sabemos, não foi a força bruta: foi a ingenuidade de aceitar, sem questionar, aquilo que parecia conveniente.
Toda gestão tem o seu cavalo de Tróia. Não é feito de madeira; é feito de ego, ambição e silêncios oportunos. Em Campo Grande, ele ocupa uma posição desenhada para a defesa. A missão deveria ser blindar sua chefe, reorganizar o discurso, antecipar crises, aparar fogo amigo e inimigo. Em vez disso, parece estacionado no pátio interno, portão entreaberto, passando a mão na crina enquanto sua comandante é alvejada. E aí se impõe a pergunta incômoda que sobrou para que eu a levante como hipótese: estamos diante de incompetência ou de cálculo?
Os sinais, para quem observa o vaivém do poder, estão ai. Quando a pauta é pesada, ele some. Quando a pauta rende selfie, reaparece. Quando ela precisa de muro de arrimo, ele entrega espuma. Quando precisa de estratégia, oferece improviso. Não falta voz; falta propósito. E propósito é o que separa o quadro técnico do quadro decorativo e o quadro decorativo do quadro perigoso.
Mas porquê ele agiria assim? Voltemos na chegada do nosso Cavalo de Tróia. Em caixa alta, ele bradava que ocuparia um das vinte e quatro cadeiras da casa de leis estadual. Não faltou pena eriçada, nem promessa ao vento. O tempo, porém, costuma cortar asas que não suportam o peso da própria ambição. E é aqui que a metáfora se fecha: o pavão teve suas penas cortadas, afinal a gestão já tem o seu estadual. O pavão então encontra no lombo do cavalo um novo veículo para se manter em evidência. Se a gestão sangra, melhor. Sangue chama holofote. Se a soberana apanha, paciência... A dor de um pode ser o trampolim de outro. E não lhe foram podadas as asas? Não é fácil por o ego abaixo e desistir de um sonho. Fica a mágoa.
Isso não é acusação; é leitura política. E como toda leitura, está aberta ao contraditório. Mas convém aplicar um teste simples, desses que não falham no serviço público: quem ganha com cada erro repetido? Quem lucra e quem perde com cada incêndio que se apaga tarde demais? Quem cresce com cada “falha de comunicação” que vira manchete? Se a resposta, direta ou indireta, aponta para o mesmo gabinete, temos menos um problema de amadorismo e mais um problema de projeto.
Nessa ciranda, há duas saídas honestas: ou se reconhece a ineficiência e se troca a peça. Sem adjetivos, sem perseguição, apenas gestão, ou se reconhece o conflito de lealdade e se abre o portão de vez: que o aspirante a “estadual” vá medir força nas urnas, e não no tabuleiro interno do Paço.
Porque cavalo de Tróia não se conserta; desmonta-se. E pavão de asas cortadas não vira águia por decreto; recolhe-se. Entre a ingenuidade de Tróia e a prudência de quem aprendeu a história, há uma lição para o "maridão": presente que chega sem função clara, com promessas de grandeza e efeito colateral de crises, não é presente. É risco. E risco, na vida real, não se estaciona no pátio interno. Quem quer servir, sirva. Quem quer holofote, pegue a fila da eleição. O resto é mito repetido e todo mundo já sabe como acaba.