
Como se sabe, existe em Brasília um silêncio que é diferente dos outros silêncios. O silêncio de Brasília não é o silêncio de quem não tem nada a dizer. É o silêncio de quem tem demais. É um silêncio lotado.
Na quinta-feira à noite, um helicóptero pousou na Superintendência da Polícia Federal carregando Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master, que até então estava hospedado na Penitenciária Federal, um estabelecimento que oferece segurança máxima e conforto mínimo.
Vorcaro vinha de assinar um termo de confidencialidade com a PF e a Procuradoria-Geral da República, o que em linguagem de gente quer dizer que ele vai contar tudo o que sabe em troca de não apodrecer na cadeia. A linguagem jurídica chama isso de “colaboração premiada”. Eu acho “premiada” um nome generoso para uma situação em que o sujeito só colabora porque não tem outra saída, mas não sou jurista.
O advogado que cuida do caso agora é o Juca, José Luís Oliveira Lima, que já pastoreou delatores na Lava Jato e tem experiência em conduzir gente arrependida pelos labirintos do Judiciário. O advogado anterior, que era contra delações, saiu. É o tipo de troca que não precisa de comunicado oficial para ser entendida. Quando o sujeito demite o dentista e contrata um cirurgião, a gente já sabe que não é mais dor de dente.
O Juca foi ao Supremo, conversou com o ministro André Mendonça, e propôs uma coisa inédita: uma delação conduzida ao mesmo tempo pela Polícia Federal e pela Procuradoria. As duas instituições, que historicamente se entendem mais ou menos como dois gatos dentro de um saco, teriam que trabalhar juntas. É uma ideia bonita. Se funcionar, será a primeira vez na história recente em que dois órgãos do Estado brasileiro cooperam sem que um tente roubar os holofotes do outro. Tenho minhas dúvidas, mas torço.
Enquanto isso, na CPMI do INSS, parlamentares receberam quatrocentos gigabytes de dados extraídos do celular de Vorcaro. Quatrocentos gigabytes. Para quem não é familiarizado com a unidade de medida, é o equivalente a oitenta mil músicas, ou duzentos filmes, ou, no caso, um número incalculável de conversas que ninguém em Brasília gostaria de ver publicadas. A sala-cofre onde os dados ficaram foi aberta no sábado. E no domingo. Parlamentar trabalhando no fim de semana é um fenômeno raro o bastante para merecer estudo científico, mas que se explica facilmente: cada um queria saber se o próprio nome estava lá dentro.
Na segunda-feira, o ministro Mendonça mandou trancar tudo por causa de vazamentos. A PF passou a terça recolhendo o material. Quatrocentos gigabytes entraram numa sala-cofre e saíram com a mesma discrição de um elefante numa loja de cristais.
O Banco Master, para quem perdeu o começo da novela, foi liquidado pelo Banco Central em novembro do ano passado. O banco cresceu vendendo CDBs com rendimentos que chegavam a cento e quarenta por cento do CDI, o que no mercado financeiro é mais ou menos o equivalente de alguém oferecer um Corolla zero por dez mil reais: bom demais para ser verdade, e era.
O rombo, somando Master, Will Bank, Banco Pleno e Reag, passa dos cinquenta bilhões de reais. O Fundo Garantidor de Créditos, que existe para proteger o cidadão quando um banco quebra, perdeu mais de um terço do seu patrimônio. É como se o seguro do carro tivesse sido usado para comprar outro carro, que também bateu.
E havia a “Turma”, um grupo de WhatsApp que, segundo a Polícia Federal, funcionava como uma espécie de milícia particular de Vorcaro. Um dos integrantes atendia pelo apelido de “Sicário”. Em março, tentou se matar sob custódia policial em Belo Horizonte e não sobreviveu. A PF não detalhou as circunstâncias. Há coisas que nem a ficção ousa inventar, e esta é uma delas.
Agora, Brasília espera. O Centrão, que é aquele grupo de partidos que não está nem na situação nem na oposição mas está em tudo ao mesmo tempo, ficou nervoso. Um líder da Câmara disse, sob anonimato, que Vorcaro “tem mais é que delatar mesmo, porque o CPF tem que pagar, não o CNPJ”. Outro líder, também anônimo, disse que a delação pode “tumultuar a Casa”. Ambos pediram para não serem identificados, o que já é, em si, uma informação.
Eu me lembro de que a Velhinha de Taubaté, aquela que era a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo, morreu em 2005, durante o Mensalão. O Veríssimo a matou porque não havia mais no que ela acreditar. Se a Velhinha estivesse viva, acho que desta vez nem o chá com bolinhos de polvilho salvava. Cinquenta bilhões é muito dinheiro até para a fé de uma velhinha de Taubaté.
A delação, se vier, ainda depende de homologação. Depende de provas. Depende de um bocado de coisas que em Brasília costumam demorar quando o assunto interessa a quem decide a velocidade das coisas. Mas o helicóptero pousou. E os quatrocentos gigabytes existem. E o silêncio nos corredores do Congresso, aquele silêncio cheio, gordo, abarrotado de nomes que ninguém quer pronunciar, esse silêncio já diz mais do que qualquer depoimento.
O gato da Velhinha de Taubaté se chamava Zé. Ela o rebatizou em homenagem ao Lula, no tempo em que ainda acreditava. Eu fico pensando que, se pudesse, ela rebatizaria o gato de novo. Mas não em homenagem a ninguém. Desta vez, chamaria o gato de Ninguém, e pronto. É mais seguro acreditar em ninguém. Ninguém nunca decepciona.