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Clube de leitura transforma rotina em presídios e aposta na ressocialização em Corumbá

Projeto reúne 120 detentos em rodas literárias coletivas e garante remição de pena com leitura mediada

25/02/2026 às 06h00 Atualizada em 25/02/2026 às 12h03
Por: João Paulo Ferreira
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Foto: Reprodução/Secom Mato Grosso do Sul
Foto: Reprodução/Secom Mato Grosso do Sul

Uma iniciativa inédita no sistema prisional de Mato Grosso do Sul tem levado livros e rodas de conversa para dentro das unidades de regime fechado em Corumbá. O projeto de extensão “A Literatura Liberta”, desenvolvido pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em parceria com a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) e o Conselho da Comunidade local, reúne 120 pessoas privadas de liberdade em um clube de leitura coletivo.

O projeto acontece simultaneamente nos presídios masculino e feminino da cidade e propõe um formato diferente das ações de leitura já realizadas no sistema prisional. Em vez da leitura individual, os participantes leem a mesma obra e se reúnem para discutir o conteúdo em encontros mediados por especialistas. A proposta busca estimular o diálogo, a reflexão e a construção de novos sentidos a partir da literatura.

A participação nas atividades garante remição de até 48 dias de pena por ano, conforme a Resolução nº 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça e a Portaria Conjunta nº 004/2025 do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. A iniciativa tem atraído adesão dos internos e interesse de instituições ligadas à execução penal.

Coordenado pela professora doutora Elaine Dupas, do curso de Direito da UFMS Campus Pantanal, o projeto conta com uma curadoria de 18 títulos, sendo oito de autores sul-mato-grossenses. A seleção busca valorizar a literatura regional e ampliar o repertório dos participantes. A ação também envolve acadêmicos de graduação e mestrado, aproximando universidade e sistema prisional em uma experiência formativa.

Foto: Reprodução/Secom Mato Grosso do Sul
Foto: Secom Mato Grosso do Sul

Segundo a coordenadora, o clube literário amplia as possibilidades da leitura tradicional no ambiente prisional. “É um instrumento indispensável para a ressocialização, que é uma das funções da pena. A novidade é ser um clube de leitura, ou seja, leitura coletiva, todos lendo a mesma obra. Isso vai além da leitura individual tradicional e permite outras percepções e reflexões”, afirmou Elaine Dupas.

As discussões são mediadas por especialistas, como Marcelle Saboya, referência em clubes de leitura na região e mediadora do Clube Leituras di Macondo, que atua há mais de uma década em Corumbá. A capacitação para implementação dos clubes no sistema prisional foi ofertada pelo coletivo Remição em Rede, com foco na democratização do acesso à literatura e na qualificação das práticas de remição pela leitura.

Uma biblioteca itinerante garante a circulação das obras entre as duas unidades prisionais, assegurando acesso organizado e contínuo aos livros selecionados. Entre as referências metodológicas utilizadas está a obra “Uma aposta nas pequenas revoluções”, que orienta práticas de clubes de leitura baseadas em escuta, acolhimento e protagonismo dos participantes.

Para a diretora de Assistência Penitenciária da Agepen, Maria de Lourdes Delgado Alves, a iniciativa está alinhada à política de humanização da execução penal no Estado. “O sistema prisional sul-mato-grossense tem investido em ações estruturadas que promovem educação, cultura e oportunidades reais de transformação. O clube de leitura está em consonância com o nosso compromisso com a ressocialização responsável”, afirmou.

Ela também destacou a atuação de policiais penais e das direções das unidades na organização das atividades e na garantia da segurança necessária para a realização dos encontros. Já a chefe da Divisão de Assistência Educacional da Agepen, Rita de Cássia Argolo Fonseca, ressaltou o caráter inovador da metodologia, que integra universidade, comunidade e sistema prisional em uma política pública baseada em educação e cultura.

Para o acadêmico de Direito da UFMS Adriano Ojeda, que participa do projeto, a experiência contribui para a formação profissional e social. “É essencial para minha formação acadêmica, humana e social, permitindo vivenciar a execução penal na prática”, afirmou.

A coordenação do projeto já planeja ampliar as turmas em Corumbá e apoiar a replicação do modelo em outras unidades prisionais de Mato Grosso do Sul.

Foto: Reprodução/Secom Mato Grosso do Sul
Foto: Secom Mato Grosso do Sul

 

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